O espelho e o tornar-se

Talvez seja a hora de vomitar um novo mundo. Obviamente, você mesma não sabe do que se trata. A maioria das vezes vem como um lampejo de vida. É mágico não pensar, mesmo  ao que mais te exige uma história. Mas de um jeito ou de outro, Sally vai nascendo e, com ela, todos os outros personagens.

Ouço uma música que não entendo, ouço vozes que não conheço, me torno borboleta. Me torno vida, me torno escrita, me torno prazer.  E tudo mais que não se pode mensurar. Meus dedos correm suave e densamente no que me torno e no que escrevo. A metalinguagem sempre foi uma de suas maiores marcas, Sally.

Sally se vê num balanço de um parque. Seus dedos se contraem contra as correntes metálicas que sustentam o pneu pintado de vermelho. Os ares leves de inocência e magnitude desenham em seu rosto um largo sorriso. Sally ainda não descobriu o por que de sua visão. Ela mal sabe se realmente está lá ou se está sonhando.

O que será que Sally está fazendo?  Quem é Sally ao se ver no espelho? Ao mesmo tempo em que ela vê o seu reflexo, ela percebe que está sendo vista. Pelo que seria o reflexo do espelho?  Pelo que seria Sally de frente para algo? Sally pensa em atravessar o espelho. Ela não se vê reflexo. E, de repente, Sally se vê dentro de uma sala repleta de espelhos. Ensaia movimentos tímidos com a cabeça, em seguida levanta uma perna devagar. Enxerga o que nunca viu antes, fecha e abre os olhos lentamente, abaixa a perna no mesmo ritmo e então, ela resolve se aproximar. Do espelho. Ela o toca com a mão esquerda que lhe parece direita. Pisca os olhos, como se tomada por um torpor de inquietude, eles se reviram por completo. É impassível de interpretação o que ela sente agora. É apenas sentimento. Ela olha fundo em seus próprios olhos, refletidos em tantos lugares. Sua alma parece percorrer todos… os lugares. Ela está tomada de si, ela está tomada de vida, ela é só intensidade.

Sally, você superou suas próprias marcas? E todo aquele sofrimento que lhe tomou por tantos anos? Por que está de volta, Sally? “Dear Sally, this is not the way…” Sally encontrou a vida que achava que tinha perdido, ela sempre esteve aqui. Assim como o seu reflexo. Numa ordem disjuntiva, numa não-ordem. Eis que ela ressurge de todo tipo de penhasco. Sally está de volta. E cheia de vida. Ela reluz e. Brilha.

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Bandeira Branca

 

Na porta do quarto esperava. O corredor estava aglomerado, a fila de homens aumentava escada abaixo. Ela olhava para o teto, no momento em que ele surgiu. Eles entraram no quarto, ela fez o de sempre. Era o último da noite. Ela foi tomar banho, de fora ouvia Bandeira Branca tocando. Ficou muito entusiasmada, era hora da diversão. Voltou ao quarto e fez de si uma mulher deslumbrante. Vestido justo preto, desenhando suas belas formas, batom vermelho que ressaltavam seus lábios desenhados, salto alto e um belo sorriso marcado no espelho.

A escola de samba estava tinindo. Ela cumprimentou seus vários conhecidos e sentou numa mesa sozinha, pois fazia questão de tomar sua cerveja sentada e antes de qualquer coisa. O garçom a serviu e ela tomou o primeiro gole. Era muito gostoso observar os presentes e apreciar sua cerveja. Olhava atentamente para as pessoas. A maioria estava eufórica, dançando sem se importar com o amanhã. Ela tomava sua cerveja e sorria ao ver toda aquela gente curtindo. Resolveu escrever um pouco, apreciava a solidão alcoólica junto a uma mini criação literária. Pegou um guardanapo, uma caneta na bolsa e fez um ponto no papel branco. O inicio era sempre o mais difícil. Ao pensar isso, riu consigo, pois na vida o inicio é o mais fácil, o meio e os fins que são sempre dolorosos. Apesar disso, conseguiu esboçar a 1ª linha de sua prosa. Era isso, começa-se sem saber o meio ou o fim, é isso que torna espontâneo.

Quando já estava lá pelo 3º parágrafo e sem ter uma história ao certo veio uma vontade incontrolável de fazer xixi. Já tinha bebido uma garrafa e meia. Pra não perder a mesa, ela pediu para que um rapaz do bar, seu conhecido, olhasse pra ela enquanto ela ia ao banheiro. Foi correndo até lá, o bendito já estava pra sair. Não tinha ninguém, ela entrou de uma vez, mal abaixou a meia calça e a calcinha e o jato já se formou. Sensação de alivio completa, apesar da posição malabarista não ser nem um pouco confortável. De cócoras em cima da privada, a bolsa numa mão e com a outra segurava a fechadura do banheiro que não fechava. Um dilúvio se fazia por entre suas pernas, intermináveis aqueles 500 ml de cerveja. Contava os quadrados do azulejo da parede azul a sua frente, até que olhou pro chão e viu uma caixinha de música bem ao lado da lixeira e de uns poucos papeis caídos. Xiiiiiiii. Xixi interminável. E a caixinha de musica atraiu totalmente sua atenção. Finalmente terminado o fluxo aparentemente incessante de urina, ela foi direto na caixa de música. Abriu sem nenhuma esperança que funcionasse e realmente não funcionou. Musica não tocou, mas lá dentro estava a bailarina rodando e a frase “Tudo está cheio até a borda” escrita no pequeno espelho da caixinha.

Ela voltou para a mesa com a caixinha. A frase, obviamente, não saia da sua cabeça. Sim, até ela estava cheia até a borda, e o pior era não conseguir esvaziar-se num texto, no samba que estava ou mesmo em sua profissão. Mas isso não era o mais importante… Mas quem teria deixado aquela caixa ali? E por que a frase? Rapidamente veio a cena na sua cabeça. Um cliente apaixonado por uma prostituta tentou com que ela virasse uma mãe de família, cristã e moralista, mas ela recusou-se e esse foi o presente dele para ela que o jogou fora no primeiro lixo de banheiro que achou. Riu alto com sua estória fantástica, mas pensou que era uma boa trama para o conto que nunca lhe saia. Amassou as duas folhas de guardanapo nas quais tinha escrito nada com nada, pegou uma nova e escreveu uma palavra, até que uma colega sua chegou aflita. Amiga, o Tonhão ta atrás de mim. Tem duas diárias que não dou a ele, desafiei mesmo… Ele disse que vai me matar. A primeira palavra do guardanapo foi “amor”. Ela olhou firme para a amiga e disse; fica aqui, nada vai te acontecer, esses exploradores de merda não tem mais direitos, você falou com a Tatinha? A amiga disse que sim e que ela não podia fazer nada, porque ele que cuidava da milícia quando ela aparecia querendo fechar a zona. Ela já sabia disso, só citou a cafetina pra tentar acalmar a amiga. Viu aqueles olhos esbugalhados diante de si e, ao mesmo tempo, olhou para o lado e viu o Jeferson, seu velho conhecido, policial.

Ela se levantou e o cumprimentou. Sua amiga ficou estática olhando para os dois, já tinha entendido o que ela pretendia. Estava combinado, Tata pagaria uma porcentagem do seu trabalho em troca da proteção do Jeferson e logo o gigolô não ia mais incomodá-la. Ela falou para a amiga relaxar e puxou os dois para dançar, não era mesmo hora de escrever. Em meio a muito samba e suor, Tata conversou com Jeferson e eles se acertaram. Ela ficou feliz em proteger a amiga e viu que aquela era a hora de se deixar levar pela música. Afinal, aquele foi um dia exaustivo de trabalho e sem um conto produzido. Jeferson migrou para o grupo dos colegas e ela e Tatá sambaram como loucas. Alguns homens as paqueravam, mas ela se sentia cansada demais pra dar bola pra algum deles e Tatá nem os via. A bateria da escola pulsava em cada um dos corações presentes, e ela sorria extasiada. Foi quando ouviu o barulho de um tiro. Olhou em sua volta, nem todo mundo tinha ouvido, nem ela tinha certeza se fora realmente um tiro. Até que olhou para sua amiga, no mesmo momento em que ouviu o segundo tiro. Tatá caiu no chão ensangüentada. Ela caiu por cima do corpo da amiga de desespero, gritava sem parar, a musica ainda não tinha parado. Depois do terceiro disparo a escola em peso entrou em pânico. Algumas pessoas corriam, outras se abaixavam. Jeferson foi correndo até as meninas, até ser atingido pelo quarto tiro. Ele caiu com a cabeça por cima da barriga de Tata. Tonhão se aproximou dos três, suando como um porco e gritando que não tinha medo de nada, não tinha medo de ninguém. A multidão gritava apavorada, Tonhão deu mais um tiro pra cima e mandou todo mundo calar a boca. Ele apontou a arma para ela, seus olhos se esbulharam; Não faz isso, Tonhão. Relaxa, cara, eu não te fiz nada. As palavras dela soaram como agulhas em seus ouvidos, ele puxou o gatilho e atirou na perna dela que caiu por cima de Tatá ensangüentada. Vai proteger sua amiguinha vai, agora tu e ela se foderam! Tonhão se aproximou, sentou de joelhos ao seu lado e sussurrou no ouvido dela: Seu desejo não é maior que o meu. Logo em seguida, levantou-se e quando apontou a arma para a cabeça dela sentiu uma bala perfurando sua coluna vertebral e caiu no chão. Era a policia. Ela não sabia se sentia alivio por não ter morrido ou se sentia mais medo da reação dos PMs ao verem que um dos seus foi assassinado.

Ela recorda desse dia como um triste e sangrento transbordar, sem bailarinas ou caixinhas de música.

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Uma nova maneira de pensar

By Rob Gonsalves

Tantas coisas correm pelo meu espírito que mal posso conceber um início. Mas é disso mesmo que se trata; uma nova maneira de pensar.

Vive-se tão preso na interioridade e na necessidade extrema de admitir um sujeito, que Deleuze foi obrigado a nos dizer está tudo errado, o real é o pensamento do fora. É daí que começa a angustia, como podemos pensar em alguma coisa que não inclua um sujeito? Pois ele insiste; não existe um sujeito, existem peças, o homem é mais uma delas. É então que surge uma tríplice aliança: o homem, o cavalo e o estribo. O homem-homem, o cavalo-animal e o estribo-objeto, três categorias diferentes, portanto, heterogêneas. Ao juntar-se, funcionarão para a formação do cavaleiro estribado. A isso dá o nome de agenciamento. Nesse agenciamento específico, cada elemento funciona como uma peça, portanto, não existe sujeito, mas sim, peças. Peças heterogêneas que se juntam não espontaneamente e co-funcionam formando um agenciamento. Então surge a questão: se não há sujeito, o que causa o agenciamento? Essa é a grande dificuldade da maioria das pessoas de compreenderem Deleuze. É muito difícil admitir que o homem não é o centro. O centro é o desejo. Portanto, toda aquela história de interioridade e interpretação não passam de mera ficção. O sujeito é uma ficção. O desejo é real. Alguém vai perguntar: mas de onde parte o desejo? O desejo não parte de lugar algum, ele não depende de sujeito ou objeto. Tudo é desejo. Só ele é real e, ao mesmo tempo, abstrato. Não tem figura, ele pode devir qualquer coisa. Mas nós não estamos acostumados a lidar diretamente com os desejos. Pra isso criaram uma máquina psicanalítica que troca o desejo (ou real) pelas interpretações. É a interpretose, ou doença do desejo.

E, por que, a interpretose é tão nociva ao espírito? Oras, a ficção que nos contaminou é a de que tudo está no sujeito. Mas como partir de representações do seu interior se esse sujeito não existe? Não seria mais inteligente, enxergar os agenciamentos e procurar se livrar dos que não prestam? É partindo desse ponto, jogando as interpretações no lixo e perguntando-se para que aquilo serve que se promove uma mudança real. Para que continuar num trabalho que você se diz infeliz? Para que continuar uma relação amorosa que não lhe trás alegrias? Para que morar numa casa que você detesta? Isso não tem nada a ver com necessidade, o que existem são desejos. Você DESEJA mudar? Você DESEJA se livrar dos agenciamentos que diminuem sua potência? Você DESEJA viver com intensidade? Pois vamos produzir novos desejos! Façamos de nossa máquina corpórea uma fábrica de desejos, desejos de mudança, desejos de rompimentos, desejos reais. Essa é a verdadeira revolução. E o que existe são apenas revolucionários ou reacionários. Os revolucionários criam, inovam, experimentam. O medo não quer dizer nada para eles. Eles não tentam melhorar a máquina do capitalismo, eles querem destruí-la. A revolução é ser forte, é se jogar rumo ao novo; é romper com tudo que ameaça-nos como potências. Os reacionários não conseguem buscar a liberdade. Ficam presos numa interioridade ilusória, mascaram suas vidas com os moldes da máquina do capital. São viciados no medo, na culpa, na resignação.  Deixam seus desejos adoecerem. Chamam de inconsciente e desejo toda essa gama de repressão que carregam na suas construções de sujeito. O inconsciente para o pensamento moderno nada tem a ver com isso, ele não precisa ser interpretado, e sim, produzido, naturalmente. A natureza é uma grande produção.

Eu diria que a maior parte de nós está doente. Doente de um mundo imaginário que insistem em nos dizer que é real. Doente de prostração, adaptação e conformismo. Doente de medo. A mim, cabe a tarefa de tentar promover o mínimo de compreensão a mim mesma e aos que me lêem. Enxergar essa doença não deve nos entristecer ou nos fazer padecer ao terror. A compreensão dessa realidade será uma injeção de partículas de vida co-funcionando nos nossos espíritos. Experimente.

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O eu além da janela

By Audrey Kawasaki

Ela simplesmente despertou. A janela estava completamente aberta e os raios de um sol promissor tocavam-lhe as pernas. Ela sentiu ainda mais calor ao ver-se entrelaçada a ele. Ao mesmo tempo em que sentia a agonia da alta temperatura, sorria ao ver-se enlaçada com seu amor. Ela desencaixou as pernas das dele vagarosamente e levantou-se.

O sol brilhava além da janela. Não sabia se sorria ou se mal dizia àquele lindo dia. Por um segundo sentiu-se apática. Tudo poderia ser tão vivo, mas não sentia nada. Resolveu fazer um café para acompanhar seu primeiro cigarro matinal. O primeiro gole lhe fez pensar no quanto o líquido é eficaz. Não importa se as portas forem fechadas para sua passagem, ele simplesmente passa. Ela riu ao perceber seu pensamento infantil.

Quando ele acordou, ela estava no banho. Olhou para a claridade que lhe incomodava, protegeu-se com as mãos e alcançou a cortina para fechá-la. Um longo bocejo até ir a cozinha servir-se de café. Enquanto saboreava o líquido negro, pegou a caixa de medicamentos na prateleira. Tomou o comprimido de Leponex com água. Ela fluía com uma força incrível de seus dentes até sua garganta.

Vestia-se à medida em que se sentia estranha. Seus músculos pareciam dar pequenas fisgadas e sua sensação era de uma dormência por todo corpo. Uma voz lhe soava doce no ouvido “você vai se machucar”. Ela fechava os olhos e cantarolava qualquer coisa para se livrar do que ouvia. De repente, a voz sumiu e ela foi ao encontro dele que preparou torradas frescas. Ela falou sobre o calor. Ele profetizou sobre o dia; “será um dia difícil”.

De fora da janela, um espanhol andarilho vendia seu artesanato feito com folha de bananeira. Parou diante de um jovem distraído no ponto de ônibus e pediu para que ele visse suas criações. O rapaz tirou os fones de ouvido e disse-lhe que já conhecia o seu trabalho, mas só estava com o dinheiro do ônibus. O vendedor continuou a dar seus preços e disse não se lembrar do rapaz. Ele insistiu que o conheceu na frente de um bar próximo, elogiou seu artesanato e novamente falou sobre a falta de dinheiro. O espanhol finalmente lhe perguntou se ele tinha, pelo menos, uma moeda. O rapaz apalpou os bolsos da calça e achou 75 centavos. Entregou-lhe. “Desculpe, é tudo que tenho a mais”. Foi então que o artesão lhe falou para escolher qualquer peça do seu trabalho. O jovem ficou encabulado, disse que não precisava, ele fez questão e o moço escolheu um pequeno enfeite que, na sua cabeça, formava uma tartaruga. Os dois agradeceram emocionados e se perderam no mundo. Antes disso, o jovem lhe deu mais 5 centavos que achara no seu bolso numa segunda busca desesperada.

Ela gritava, chamava-o de monstro, de escroto. Ela pegou o elevador e desceu a rua em direção ao centro de tratamento dos dois. Aquela era a sua segunda casa, mesmo guardando certo rancor da instituição e de seus profissionais, aquele era o seu segundo refúgio. O rancor não era proveniente da forma que era tratada, mas da imagem sólida de seus medos e fraquezas que ali ficavam projetadas. Anos e anos de tormento e solidão, numa história que, mesmo compartilhada, era só sua. Isso era mais que o bastante para doer, para fazer gritar. Ele correu aflito atrás dela, sabia o tamanho do seu sofrimento que, naquele momento, conflitava diretamente com o seu. Frases inteligíveis tilintavam em seus ouvidos, ele as ignorava.

Ela chegou completamente perdida. As imagens em sua volta eram rabiscos compostos de tantas cores que lhe corroíam a alma. Não podia suportar tanta dor. Gritava! Berrava! Contava seu sofrimento através de seus olhos desesperados. Os profissionais se alarmavam, foram para junto dela, queriam ouvi-la. Naquele momento ela os via como traidores. Cúmplices daquele que julgava um canalha. Eles estavam de acordo com tudo que a perseguia, do seu marido aos soldados nazistas. O barulho dos coturnos marchando a incomodava crescentemente. Olhava ao seu redor em desespero. Como ninguém podia ouvi-los? Como ninguém a ajudava a se esconder desse terror de farda que ameaçava-lhe matar? A única arma que tinha era sua voz. Ele, finalmente, chegou até ela e a pediu desculpas, pediu que voltassem para casa. Os olhos dela não podiam acreditar ao vê-lo. Por que a expulsara de casa apenas com a roupa do corpo? Por que mostrava quase nenhum amor? Por que sempre tinha que surtar ao brigar com ele? Nada disso veio na sua mente, apenas no seu corpo. Ela continuava vendo soldados, agora os milicos da ditadura. Ouvia, novamente, seus coturnos explodirem contra o chão. Olhava nos olhos dele e via sua face derretendo em puro terror. Ninguém pôde ajudá-la. Ele tentava recuperar os olhos dela. Ela gritava. Não via mais nada. As vozes se apossaram do seu corpo. O grito era a forma mais terna para externar toda sua angústia. Ninguém tinha dimensão do que se passava. Os estagiários anotavam em seus cadernos as reações e o que achavam significativo para compor seu diagnóstico. Os profissionais “responsáveis’ tentavam acalmá-la segundo as cartilhas psicanalíticas os ensinara. Seus métodos eram em vão, não haviam aprendido nada. Não haviam aprendido a viver sem regras, tudo não passava de uma interpretação. Prontuário: Mais uma crise devido à briga conjugal.

Suas lágrimas eram como espinhos em seu corpo. Agora não podia mais tentar cortar seus pulsos, estava numa ambulância e todos a vigiavam. Depois de ter ouvido dela que ele acabara com sua vida, ele decidiu ficar lá. Não a acompanhou, “isso acentuaria sua crise”, disse alguém.

E lá estava ela, novamente na emergência após apenas quatro semanas depois da última vez. O motivo? Aparentemente ele seria o causador. Mas o pior é que não há causador. Ela não teve escolha. “Não queria ficar assim, por que eu surto?”, soltou ela da penúltima vez que nos encontramos, há pouco tempo atrás. Eu a confortava, mas não tinha a mínima idéia da resposta para sua pergunta. E hoje não fui capaz, se quer, de aproximar-me dela, pois, além de não acreditar em interpretações, ainda não posso dar-lhe uma resposta digna.

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La foule

Despertou com raios de sol iluminando sua face, refletiam o verde de seus olhos na janela entreaberta. Sua colega de quarto já havia despertado e se arrumava ansiosa diante do espelho. É hoje, Edit! A grande festa! Ela esfregou os olhos com as mãos e tentou focalizar a amiga, mas lembrou-se que estava sem óculos e sua miopia não lhe permitiria tal feito. Anda, Edit! Cadê a sua máscara? Mas de que raios está falando, Bete? Como assim do que estou falando? Hoje é o dia do baile, esqueceu?! Mas que vá pro raio que o parta este baile! Virou-se para o lado cobrindo-se por completo. Ah, não Edit. Hoje eu não vou deixar você sozinha neste quarto, nem que você queira! Anda, levanta! Tenho mais de uma máscara aqui para você escolher. Eu não quero ir a parte alguma, Bete, pelo amor de deus, entenda que… Entendo que você está magoada porque o Antonio partiu, entendo que sofres uma dor de dilacerar o estômago e é justamente por isso que sim, você vai ao baile, Edit!

Bete era virginiana e completamente diferente de Edit, mas mesmo ouvindo as reclamações da amiga não desanimava e sempre lhe convencia de fazer o que queria. Edit não saia do quarto a dois dias, nem para ligar para a família que vivia no interior do Rio de Janeiro.  Estava completamente desanimada desde que seu amor partira. Moravam na mesma cidade, mas ela sabia que nunca mais o veria. Mesmo se cruzasse com ele na rua, tudo seria tão diferente que era como se não o visse. Na verdade, foi esse medo devastador que a fez ficar no quarto por dois dias, só saindo para ir a cozinha comunitária da pensão na Tijuca.

Você não ligou para o trabalho, Edit? Não acredito! Ela fez que não com a cabeça, pegou “O imaginário” de Sartre que acabara de ser lançado e começou a ler. Bete aumentou o som do rádio que tocava entusiasmado “Aurora” e tomou o livro de Edit. Já falei que hoje você não fica aqui sozinha! Mas eu não quero sair daqui, Bete! Que raios! “Se você fosse sincera, Ô ô ô ô Aurora,Veja só que bom que era, Ô ô ô ô Aurora”. Você vai sair nem que seja carregada! Abaixa esse rádio, por favor. Ora vamos, Edit! É dia de festa, é carnaval! Já falei com o Abelardo, hoje você vai cantar! Está tudo combinado, vamos, senão irá se atrasar. O que? Você só pode ter enlouquecido de vez, Bete… Eu não vou cantar, de jeito nenhum! “Madame antes do nome, Você teria agora, Ô ô ô ô Aurora”. Mas é claro que vai! É só disso que você precisa, cantar! Mas sabes que não canto há uns dois anos, sem ensaio nem nada. É claro que não vou cantar, Bete! Pára de ser reclamona e trate de se arrumar que já estamos atrasadas!

Depois de muito discutir, Bete, mais uma vez, conseguiu com que a amiga se arrumasse e, sob muitos protestos, chegaram ao bairro da Gloria, onde o baile já acontecia ao ar livre. Edit ainda estava meio zonza, mesmo por trás da sua máscara cor de ouro, ainda sentia-se acanhada e morrendo de medo da multidão enfurecida. Vai que um daqueles rostos cobertos era o do seu amor? Como poderia ela estar segura diante de tantos olhos desconhecidos? Será que sua amiga não entendia? Bete, preciso ir embora agora. Pára de besteira, Edit! Olha, lá está o Abelardo! Vamos logo combinar a cantoria. Bete, por favor… Anda, Edit! Hoje é o seu grande dia! Você vai voltar aos palcos! Ora, mas que grande tolice, Bete, eu só concordei de vir até aqui porque você não me daria paz nunca, mas daí a cantar… Oras, que tolice! Vamos, ele acenou para nós! Oooi Abelardo!!!! Vamos, vamos, ele está nos esperando! Bete a puxou pelo braço e foi em direção ao rapaz que acenava entusiasmado. Ele tinha os olhos claros como o céu, um fino bigode que denunciava seus 27 anos e um sorriso que já havia deixado muitas moças sem ar. Abelardo as cumprimentou de forma muito cortês e simpática. Beijou a mão direita de Edit e lançou-lhe um olhar que a fez ficar sem graça. Você, minha bela diva, cantará sucessos do Trio de Ouro junto com uma banda de amigos meus que já está para chegar. As bochechas de Edit ficaram vermelhas imediatamente e, disfarçando um sorriso, perguntou-lhe por que a chamava de estrela se nunca havia a visto cantar. Aí é que você se engana, Edit da Silveira. Já ouvi a senhorita cantar e muito. Ela pasmou mais ainda quando ele pronunciou seu nome artístico. Já a vi cantar em muitos lugares e, quando não mais ouvir falar da senhorita, fiquei bastante sentido. Já alegrou muitas noites minhas, mesmo sem saber. Edit não conseguia mais disfarçar o sorriso, e apenas conseguiu dizer: obrigada. Bem, mas vamos ao que interessa, vou lhe passar o repertório, vocês devem começar a apresentação em uma hora.

O resto da banda chegou e, logo, eles foram para trás da coxia improvisada e começaram a ensaiar. Quando Edit começara a cantar todos ficaram pasmos. Abelardo já havia dito a seus amigos que ela esplêndida, mas eles nunca imaginaram que ela cantasse tão bem. Edit fechava os olhos e balançava seus bracinhos magrelos com a  suavidade de um cisne. Os olhos de Abelardo vibravam ao ver sua diva cantar. Sim, desde que a vira pela primeira vez ouviu a sinfonia dos deuses a lhe falar “é ela!”. Ele mal podia acreditar que estava ali, naquele pequeno espaço, ouvindo a mulher que acreditava ser da sua vida, cantar. Conheceram-se na Gávea, numa noite de muita bebedeira e conversas profundas. Desde então, Bete ficou muito sua amiga e os três sempre se encontravam. Abelardo, mesmo sentindo um amor infinito por Edit, era muito tímido e respeitador, portanto, não a cortejava, para que ela se sentisse a vontade. Além disso, conheceu Augusto e jamais passaria por cima dos sentimentos de sua estrela. Mas naquele momento tudo era diferente, era como se ela lhe tocasse de leve os ombros com sua voz fabulosa. Sentia o ar de seu respiro como algo novo. Não era a mesma Edit das mesas de bar. Parecia estar renascendo ao passo em que ia cantando. Abelardo via luz saindo dos movimentos de suas mãos e brilho nas ondas sonoras de sua humilde cantoria.

A hora se passou rapidamente e quando Edit deu por si, já estava em cima do pequeno palco, sendo aplaudida por dezenas de pessoas. Abriram a apresentação com “Praça Onze”. Um sucesso total. Além de Bete que gritava entusiasmada da primeira fileira, o baile havia praticamente parado para ouvir Edit cantar. Restavam poucos dançando e um número ainda menor de pessoas permanecia sentado. Os olhos de Edit brilhavam e ela mal podia lembrar-se de seu sofrimento, ou da existência de um Augusto sequer. No meio do show tirou sua máscara e ao fim foi aplaudida de forma histérica pela platéia que, a partir daquele momento a amava.

Um grupo de marchinhas havia substituído a banda de Edit, as pessoas continuavam animadas, mas nada se comparava a apresentação que teve. Fora cumprimentada pela maior parte da festa e, finalmente, pôde dançar a vontade com Bete, Abelardo e seus mais novos colegas de banda. Depois de três doses de conhaque e algumas cervejas, Edit já se sentia bastante a vontade e a dor que carregava a três horas,  parecia estar extinta por completo. Abelardo também havia bebido e, depois de muito tempo, sentiu uma segurança fora do comum. Foi o que o impulsionara a puxar Edit pelo seu braço esquerdo e dar-lhe um beijo apaixonado. A música havia acabado de parar e as pessoas aplaudiam no momento exato em que a beijara. Era como se tudo aquilo fosse pela sua coragem. Ele realizava um sonho, um sonho acordado e de olhos fechados. Edit não resistiu e entregou-se totalmente àquele momento. O barulho das palmas lhe fazia sentir ainda no palco e, por isso, seus pêlos do corpo se arrepiaram. Bete assistia a tudo e vibrava pela reação da amiga ao amor não retribuído.

O baile continuava cada vez mais animado e Abelardo e Edit permaneciam sem máscaras. Aos olhares estranhos parecia um casal de anos muito apaixonado. Olhavam-se nos olhos, andava de mãos dadas e davam os beijos mais ardentes quando pensavam que não havia ninguém lhes prestando atenção. O turbilhão de pessoas coloridas fazia-lhes mover-se de um lado para o outro. Amavam-se mais ainda à medida que eram empurrados e arrastados pela multidão. Jogavam serpentinas, lança-perfume e, por vezes, as cervejas que lhes caía do copo nos transeuntes. Edit sentia sua cabeça e coração em idas e vindas, como se estivesse num mar de seres humanos. Sorria e sentia-se muito feliz.

Já passava da uma da manhã e Abelardo foi trôpego anunciar o fim do baile no microfone. Edit que estava rente ao palco, já não tinha quase nenhuma consciência da realidade. Seu corpo era uma pluma a flutuar por entre as pessoas que a arrastavam para trás. Acabou por vomitar em seu próprio vestido. Bete, que era muito mais resistente à bebida, tratou de levar-lhe para casa.

Edit e Abelardo nunca mais se viram. E aquele romance de um baile, acabou por ser o prelúdio da música “La Foule” da eterna estrela Edith Piaf.

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O caminho de ver

O amor. As cidades. As muralhas. O que nos impede de viver. O que nos impede de viver? Construímos coisas para nos destruir. Para que inventamos os carros e os asfaltos se eles matam tantos de nós a cada instante? O amor reduzido ao carnal. Por que não amamos uns aos outros incondicionalmente? Por que queremos nos matar o tempo inteiro?

E a vida passa errante para os que se negam a enxergá-la. Mais que enxergá-la, a vê-la. Preferem se concentrar no que nos mata, no que nos fizeram acreditar que é “evolução”. Naquilo que nos envenena a cada dia. Envenena-nos em espírito, nos envenena em corpo. Envenena a vida. Mas preferimos não ver. Preferimos continuar nos entupindo de substâncias que nos fazem mal, de rotina que nos faz perder tempo, de mentiras e ilusões da existência mundana.

Vaguem pelos cemitérios, que diferença faz lá dentro o mausoléu da família Matarazzo ou da família Silva? Que diferença faz ter uma estátua de Jesus cristo esculpida pelo maior artista plástico da época diante de restos mortais devorados pelo tempo? Para onde vai tudo isso?

Não param para pensar. Não param para sentir. Não têm certeza da própria existência. Não percebem que estão muito além de uma vida, essa não é a primeira e, para a maioria, não será a última. Portanto, essas vidas não importam. Não importam aqui, esse mundo não é nada. Passagem. Somas. Evolução além do terreno. E quando morrermos, todas as nossas experiências e feitos resultarão na energia inexplicável que somos e desprendemos para o resto do infinito. A terra é uma minúscula partícula no infinito. A vida está em toda parte. A evolução é eterna e impossível de ser racionalizada. O racional também é um grão. O espírito é o infinito.

Mas elas não percebem. Não entendem a passagem. Não buscam experiências que lhes façam potentes. Se matam. Constroem casas que desabarão em suas cabeças, compram carros que serão responsáveis por seus acidentes de morte, comem carne fruto de tortura que eles mesmos envenenam em prol do dinheiro. De que mais o ser humano é capaz? Esse planeta não foi feito só para nascer e morrer. Sejam.

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Sombra e luz

É tudo uma gande mentira que busca aprisionar o sujeito no seu póprio eu.

Olhares, enganos, desconstruções, abalos císmicos e toda dor do mundo. Amor delírio. Paixão martírio. Lágrimas tão vivas capazes de produzir luz. A fuga é o primeiro passo. A inércia corrosiva vai matando aos poucos.

Desconexo.

Os carros continuam se multiplicando, o que antes era um facilitador virou um estorvo, graças a impulsão (anti)humana de individualismo e poder. O poder é sempre usado para a exploração. Na briga pelo degrau mais alto da escada, uma cabeça sempre é pisada por alguém que está subindo e que terá que ser pisado também até chegar ao topo da cadeia monetária.

Felicidade é a obra de arte mais perfeita, mas ela ainda está para nascer.

O ego acha uma brecha no espírito e passa a reger as ações do corpo. O espírito, mesmo sendo mais forte, parece ficar apagado. Bloqueado por uma   força que não nos é natural. Ego é criação. Vem de fora para dentro.

Os corpos sem alma transitam numa frenética corrida pelo capital e pelo poder.

Cheiros, peles, desejos entre (des)encontros constantes. O acaso pune e trás os maus encontro inevitáveis. A vida é cheia de rasteiras, é uma trilha com final inacabado. Alguns morrem no caminho, outros se perdem, outros sobrevivem.

Outros tornam-se mortos vivos.

Constante inconstância de saberes, vítimas das mais atrozes dúvidas que transformam-se na certeza de não se saber nada. A mesma potência que nos nutre, nos destrói. A consciência dessa potência, bem como a consciência dos bons e maus encontros deveria fortalecer, mas, na maior parte do tempo entristece.

Os acasos são infinitos e a busca pelo equilíbrio é a mais utópica das tentativas humanas. Não existe meio termo, a vida é uma enchurrada de sentimentos. Olhar para o pássaro que canta em seu ninho é a sua parte bela. A dor é a parte cruel. Dilacerante. Somos feitos para desabar.

Se não houvesse queda não haveria porque levantar.

Fuga da realidade abstrata que é o mundo. Joga o ego fora e deixa o espírito emergir. A força só pode ser achada dentro. O fogo destrói e,  ao mesmo tempo,  emite luz. O mundano assusta e enfraquece, cria o medo que impede de dar qualquer passo. A potência só aumenta se o medo se esvair.

As palavras não são nada perante os sentimentos.

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