Arquivo do mês: setembro 2016

A angustia do tempo

clouds

Será que temos que ter sempre alguma coisa a dizer? E o som do silêncio?

A reflexão genuína abre espaço para a distração constante. Sally não consegue mais ler a quantidade de livros que lia, ela não consegue mais escrever. Ela foi silenciada?

O tempo passou terrivelmente rápido, em pensar que Sally aos quatorze anos começou sua jornada pelo mundo do pensar e questionar. O que mais desejava era romper com tudo, afinal, suas ideias não cabiam na sua realidade. Ela precisava transformar, ela precisava experimentar o tempo inteiro. Ela precisava ser subversiva, ela precisava dar um novo significado ao mundo, porque, de repente, ele parecia cada vez mais perder o sentido a medida em que ela o descobria a fundo.

Com um cigarro na boca, angustia no coração e um pouco de álcool na cabeça, Sally tenta inutilmente passar alguma coisa para o papel que na verdade virou tela do computador. Ela tomou tantos rumos diferentes que parece que algo lhe separa friamente da sina de colocar seus sentimentos em frases. Então ela pensa; o que nos distancia tanto dos nossos desejos? Seu desejo não era ser escritora, afinal? Acontece que os anos se passaram. Sally não percebeu. Ela busca reencontrar aquela menina que parecia tão genial, mas parte dela adormece dolorosamente.

Cada fio branco lhe lembra de que a rapidez que a sua vida corre hoje vai triplicar e quando ela menos esperar tudo terá passado pelos seus olhos como um filme sem roteiro. Sally recorda que essa consciência lhe atormenta desde muito nova. Por que o tempo sempre foi algo que lhe fez temer? Apesar de admirar e ouvir bastante os mais velhos que carregam sabedoria e bons intentos, Sally sempre teve medo da velhice. Não só da velhice, como de não conseguir realizar metade do que considera suas missões. Porque os acontecimentos, ah, os acontecimentos são muito maiores do que qualquer um de nós, o que torna tudo imprevisível e passível de que qualquer mudança brusca e irreversível. A vida é irreversível. Não escolhemos estar aqui, não sabemos porque estamos e, muito menos, por quanto tempo.

O tempo é uma angustia. Sally odeia o passado. Não por prender-se a ele, mas por ser um tempo que não existe. Sally odeia remoer o passado. É seu maior exercício. Porém, o gosto, o cheiro, o sabor, o sentir da nostalgia a faz voltar para a sua juventude de forma saudosa e angustiada. Não pelo que fez ou deixou de fazer, mas pelo fato de nunca mais poder viver aquilo daquela forma. Ela pode buscar recriar todas as situações, até com as mesmas pessoas, porém, tudo sempre será diferente, principalmente porque estamos em constante mutação. Jamais seremos os mesmos de segundos atrás.

Sally sorri. Ela gosta do que se tornou. Porém o tempo a assusta. A nostalgia a fez querer chorar. Uma música que a leva para os confins de vivências deliciosamente pesarosas. Do que importa descrever essas vivências se todos nós a sentimos? Agora é tudo diferente, ela tem vontade de chorar, mas as lágrimas simplesmente não vem. Acabou o drama. As cascas tomaram conta da sua ingenuidade. As coisas parecem ter um sabor um pouco mais amargo. Não por assim ela desejar, mas a soma de experiências são como uma fruta que vai amadurecendo até ficar parcialmente amarga, porém ainda boa para consumo. Ela se sente assim por vezes, mas gosta de afastar de imediato esses pensamentos. Sempre que possível. Possível. O tempo? O tempo é possível?

A subversão e a o desejo intenso de mudar o mundo ela sabe que nunca perderá. Porém, ainda falta trilhar o caminho da sabedoria para deixar fluir o tempo sem que isso lhe doa tanto. A angustia é que o tempo é curto e há muito o que fazer. A vida é um sopro.

 

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