Arquivo do mês: junho 2016

O desejo adoecido pela sociedade de controle

PawelKuczynski58

Por Paul Kucynski

  1. INTRODUÇÃO

      O presente ensaio irá analisar aspectos da sociedade de controle descrita por Gilles Deleuze no texto Post-scriptum sobre as sociedades de controle (Deleuze, 1970). Apesar do texto ter quase cinquenta anos, ele é extremamente atual, pois o controle chegou ao seu ápice, atingindo diretamente o desejo da pessoa que passa a ser controlada através da sua subjetividade.

           A fluidez e facilidade das formas de controle contemporâneas são muito grandes, possibilitando que a dominação por parte do capital seja ainda maior e mais potente na vida do indivíduo. Afinal, ele é induzido a achar que é livre em suas escolhas, mas seu desejo já está moldado para o consumo, o individualismo e consequentemente o endividamento. O encarceramento deixa de colocar o corpo dentro de um espaço e confiná-lo lá dentro, como na família, na escola ou na fábrica. A partir do fim do século XX este corpo é tutelado espontaneamente, pois ele está sob um domínio muito mais poderoso; o da sua subjetividade.

  1. DESENVOLVIMENTO DO TRABALHO

             Gilles Deleuze foi um filósofo francês que revolucionou o pensamento mundial. Seu trabalho aponta para uma teoria completamente nova da sociedade capitalista. Em O Anti-Édipo (1970) e Mil-Platôs (1980) o autor rompe com as correntes de Freud e Marx, propondo uma nova maneira de pensar o sistema capitalista. Para Deleuze, o mesmo caracteriza-se como um sistema esquizofrenizante em si, fazendo com que as pessoas adoeçam, não apenas fisicamente, mas principalmente que tenham seus desejos adoecidos. Para o autor, o desejo é base de tudo, nada existe sem o desejo e ele é o agente principal de todas as interações humanas.

         O que interessa ao capitalismo é a produção desejante, que atravessa a subjetividade para além das categorias do coletivo ou do individual, do psicológico ou do sociológico, abrindo caminho para a criação. O conceito de trabalho imaterial também perpassa por essa lógica. Os autores Negri e Lazzarato em Trabalho Imaterial: formas de vida e produção de subjetividade (2001) afirmam que o perfil do novo trabalhador é baseado na sua personalidade, não apenas na sua força braçal e mecânica. É preciso que esse trabalhador tome decisões e seja cada vez mais intelectualizado. Eles também colocam que o ciclo do trabalho imaterial é construído por uma força autônoma que organiza seu próprio trabalho e relações com a empresa. Sobre essa mudança nas relações de produção, Deleuze no texto Post-scriptum sobre a sociedade de controle (Deleuze, 1970) aponta a transição das sociedades disciplinares, onde o indivíduo encontrava-se sempre institucionalizado. Desde a família, até a escola, trabalho (fábrica), hospital e, até, eventualmente prisões. Todos esses locais exigem formas de se comportar e impõe controle sobre os corpos que antes eram contados como números. Porém ainda no século XX, essas instituições entraram em colapso e deram origem a um novo modelo: a sociedade de controle.

          A lógica é que os confinamentos funcionam como moldes enquanto os controles como modulação. O controle vai se moldando, se auto deformando para se adequar a pequenas mudanças e isso se vê claramente no principio do salário por mérito, das metas estabelecidas pelas empresas, ou até mesmo nos programas de televisão de auditório, pois, basicamente, todos fazem parte da construção da subjetividade competitiva. É assim que dentro da sociedade um indivíduo vira rival do outro, o normal é querer competir e ser o melhor. Essa é a subjetividade que vai sendo alimentada e que interessa à empresa.

          Sobre a transição da fábrica para empresa: “a fábrica era um corpo que levava suas forças internas a um ponto de equilíbrio, o mais alto possível para a produção, o mais baixo possível para os salários; mas numa sociedade de controle a empresa substituiu a fábrica, e a empresa é uma alma, um gás” (Deleuze, 1972).  A própria escola passa a ser uma empresa, dessa forma, as formações contínuas substituem a escola padrão que já moldam o sujeito para a empresa. O indivíduo é estimulado a “vestir a camisa” e “vivenciar a marca”, seja dentro da empresa como empregado ou fora como consumidor, é a partir daí que a empresa passa a assumir sua condição de alma do indivíduo, ela vira sua força motriz e isso pode acabar sendo traduzido em muito mais horas de trabalho, pois para mostrar que é um empregado comprometido, o trabalhador acaba ficando conectado em tempo integral, respondendo e-mails ou fazendo pesquisas e contatos referentes ao trabalho. Se na fábrica sua carga horária era de 10 horas, atualmente é durante todo o período em que se encontra acordado.

       A economia também altera seu fluxo neste processo. O mercado não é mais baseado no valor do peso do ouro, concreto e determinado pela balança. As trocas agora são especulativas, determinadas por constantes flutuações nas bolsas de valores e fundo de caixa que não existe. A partir do momento que a moeda não precisa mais de lastro para circular, o dinheiro passa a ser virtual. Deleuze afirma que a corrupção acha na sociedade de controle sua máxima potência, ora, com o capital flutuante é tanto mais fácil desviar uma maior quantidade de dinheiro, quanto camuflar a própria corrupção. No Brasil atualmente vive-se uma crise política motivada por uma série de interesses que vão da apropriação pelas empresas estrangeiras do pré-sal até a massa corrupta da política brasileira querendo se safar das investigações da Operação “Lava Jato”, promovidas através do governo de Dilma Rousseff. Como resultado, o país está sob um golpe de Estado que afastou a presidente idônea e a substituiu por um presidente interino com a cúpula de ministros mais corrupta da história. O desejo foi fator determinante para que o golpe acontecesse no país. A população foi bombardeada de propaganda anti-PT e, como o partido também não cumpriu sua agenda com a esquerda brasileira e ainda se envolveu em diversos escândalos de corrupção foi perdendo apoio gradativamente. A direita furiosa por ter que agora dividir privilégios com as massas versus a esquerda não representada pelo partido abriram espaço para que os guardiões da política tradicional brasileira – corrupta – pudessem usurpar a presidência, alegando um impedimento sem que haja crime de responsabilidade.  Atualmente a corrupção assola o país em uma crise política sem precedentes, onde a população está descrente dos seus representantes e com a certeza de que a corrupção é a base do sistema político brasileiro.

  1. CONCLUSÃO

           A passagem da sociedade disciplinar para a sociedade de controle tem seu ápice na informação. Através do fluxo de informações, na época de Deleuze da TV, rádio, jornais e o início da Era Digital. Hoje em dia, a internet e, principalmente, as redes sociais ganharam toda força, podendo ser classificada como a maior forma de controle da atualidade. A plataforma do “Facebook” criada por Mark Zuckerberg, é a maior rede de informação voluntária do mundo. E não a toa, o seu CEO está sempre reunido com lideranças mundiais como Barack Obama e David Cameron. O desejo faz as pessoas partilharem espontaneamente todas as suas informações; localização, gostos, pensamentos, relacionamentos, enfim. Todos os dados estão registrados, inclusive aqueles que o usuário deleta.

            Através de softwares baseados em algoritmos é possível cruzar as informações para saber todos os conteúdos que interessam da vida dos indivíduos. Basta usar o mecanismo de busca para certo lugar que os anúncios das companhias de viagem e rede hoteleira brotam nos cantos das páginas com todo um serviço de propaganda personalizado. Desse modo, o marketing se apropria também da internet. Os usuários desejam que suas personalidades sejam conhecidas, suas opiniões importem e, com isso, vão fornecendo dados para as empresas que precisam manter seu ciclo de controle da subjetividade.

Por Rafaela Uchoa

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