Arquivo do mês: outubro 2015

O despertar para um sonho

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O celular a desperta uma hora antes do previsto. Mas não como um simples despertador e sim pela sua ansiedade de saber quais as novidades em suas redes sociais. Olívia acorda para fazer xixi, ao abrir os olhos a primeira coisa que seu consciente lhe diz é para ver o celular. Enquanto confere quantas curtidas recebeu, seu sono se esvai e ela passa o resto do dia cansada.

Ela trabalha num escritório de advocacia há três anos como secretária, mas queria mesmo ser pianista. Sua vó lhe ensinou a tocar desde muito pequena, mas ela não conseguiu se sustentar de música. Olívia vive cansada e insatisfeita com o jeito que gasta dez horas diárias de sua vida. Afinal, são oito horas de trabalho e mais uma hora pra ir e outra pra voltar quando o trânsito ajuda. O escritório é longe. Três baldeações de metrô e depois dois ônibus para cada trecho, ao todo dez transportes por dia só para trabalhar. A região onde fica o escritório é muito cara para se viver e seu entorno também. Os avós de Olívia moravam por lá, mas desde a geração dos seus pais para quem não tem muito dinheiro ficou impossível fazer parte da cidade, a única coisa que lhes restou foi ir para a periferia e ter o mínimo de acesso possível.

Ultimamente seu hobby tem sido sonhar. Olívia descobriu que a única hora que não se sente explorada ou sugada é durante seu sono. Ela correu atrás de alguns livros sobre o assunto. Um deles fala sobre um cara que aprende a sonhar com um sábio índio espiritualista. Ele afirma que existem universos paralelos no mundo do sonhar que também são reais e podem até influenciar nessa realidade.

Olívia lia antes de dormir com algumas interrupções para a checagem no celular se suas fotos e mensagens dos amigos e parentes tinham tido boa aceitação. Na vida prática, Olívia tinha duas amigas, uma desde a infância e outra que conhecera no trabalho, mas nas redes sociais tinha literalmente mais de mil amigos, a maioria nunca conheceu pessoalmente. Apesar da popularidade virtual, Olívia se via muito cansada de tudo. Sentia que a cada dia abdicava mais dos seus desejos e vivia sendo levada pelas obrigações. A falta de dinheiro, o trabalho maçante, a necessidade de compartilhar suas fotos no facebook buscando aprovação eterna para sua aparência e seus gostos, tudo isso lhe desanimava profundamente, mas não sabia como fazer diferente. Olívia estava a espera de uma salvação que estaria em qualquer lugar menos nela.

Sobre o significado do sonho existem duas visões predominantes; uma se caracteriza como a experiência de sentir e vivenciar situações diversas durante o sono e a outra diz respeito aos desejos e metas que a pessoa tem. Olívia até agora não tinha conseguido concretizar nenhum de seus sonhos, nem o de ter tocado numa orquestra, nem o de viajar pra fora do Brasil, nem o de escrever um livro. Viveu um sonho, mas ele acabou muito rápido. Amou e foi amada, mas perdeu seu amor num acidente de carro. Ela sabia que se não mergulhasse em outra forma de viver, de sentir e tornar-se, não resistiria. A depressão é a doença do século, Olívia tinha medo de ficar deprimida, pois assistiu sua mãe definhar até a morte por ser maníaco depressiva. Desde que descobriu que pode sonhar, achou algum sentido na vida.

Ao estudar os sonhos Olívia descobriu que podia ficar consciente dentro deles e até mudar seu conteúdo de acordo com sua força energética. Ela quer muito conseguir fazer viagens pelos países e planetas que sonha conhecer através do que alguns chamam de “projeção astral”. Para isso ela precisa de prática e mudanças em sua percepção. Logo percebeu que querer se sentir especial de alguma forma, seja através da internet, das roupas, das mentiras que às vezes contava pra desconhecidos para os impressionar, nada disso a fazia evoluir. Ao se sentir especial, ao achar que a auto importância é primordial, ela passa a quebrar a corrente de energia que une tudo e todos e começa a subjugar o outro. Olívia percebeu então que é daí que nasce o desejo de poder. Esse desejo é o que faz bilhões de pessoas como ela serem exploradas diariamente apenas para conseguirem o básico para sobreviver, enquanto seus chefes, braços fortes da engrenagem perversa do capital engordam suas contas bancárias e bens. Quando pensava demais em tudo isso, se sentia cada vez mais sem saída e sozinha. Na verdade sabia que a maioria da população mundial vive em situação muito mais precária que a sua. Por isso, se sentia mais sozinha, já que estão todos no mesmo barco e a maioria não se dá conta ou não sabe como escapar dessa prisão. A multidão solitária está cada vez mais neurótica e infeliz, sentia um arrepio frio e ácido no peito ao se dar conta disso tão claramente.

         E que solidão é essa para quem tem mil amigos na internet? Ficava mais tranquila quando postava um pensamento que as pessoas gostavam ou uma imagem que atingisse muitos comentários. Mas quem são essas pessoas do outro lado? O que é revelado delas nessa exposição desenfreada de tudo que se quer que o outro saiba? Por vezes, se sentia ridícula de fazer parte disso. Como fazer parte de uma rede onde muito se fala e nada se vê? Como achar caminhos para mudar o rumo da vida de todas essas pessoas, incluindo o dela mesma? Um caminho que aponte não apenas para a auto importância, mas para a noção de que precisamos todos uns dos outros e que todos somos importantes. É tão difícil que essa concepção caiba numa realidade que separa por metros pessoas em situação de rua comendo os lixos que os magnatas que moram nos apartamentos de 500m² produzem…

Olívia respirou fundo seguidas vezes até pegar no sono, aprendeu essa técnica em um livro, sua aventura começava naquele instante. Ela estava no meio da rua na Time Square em Nova Iorque, tal e qual via na internet. O relógio corria mais rápido que o normal e os carros começaram a passar por ela apressados, tinha que desviar de todos eles até que sua consciência despertou. Lembrou que estava sonhando e que poderia sair dali se usasse sua concentração e energia para isso. Então, fechou os olhos e quando os abriu estava em outra cidade, uma cidade que só parecia existir ali naquele mundo. Já sabia que os seres que via por lá eram pessoas, mas elas tinham formas e cores estranhas e seus rostos não eram nítidos. Olívia já esteve naquela cidade antes, mas não conseguia lembrar em qual circunstância. Ao caminhar pela bonita paisagem do lugar, viu plantas e animais exuberantes, diferentes dos que veria por aqui. As casas seguiam uma ordem de degrade de cores. De um lado o degrade de cores frias e do outro um degrade de cores quentes. De repente aquele cenário começou a se esvair como uma fumaça e quando se deu conta, estava no fundo do oceano, com correntes presas em seus pés. Tentava se soltar em vão, ar não lhe faltava, mas a agonia de não conseguir se soltar era imensa. Até que lembrou que se usasse sua concentração poderia sair dali, mas diante de tanta tensão preferiu tentar acordar até que conseguiu.

Olívia saltou da cama como se finalmente tivesse tirado aquela amarra dos seus tornozelos. Sua respiração ainda estava ofegante quando olhou para o relógio e viu que estava uma hora atrasada para o trabalho. Entrou em pânico porque tinha que acompanhar uma reunião importante de um dos advogados da empresa. Mas somente uma hora e meia depois chegou ao escritório. A reunião já havia acabado e ela foi demitida por tê-la perdido. Nunca havia cometido um deslize, seu atraso máximo foi de quinze minutos e nada disso foi levado em consideração, mas para ela também não importava, pois o desespero tomou conta da sua mente; como iria sobreviver daquele minuto para frente? Andava errante e perdida pelas esquinas luxuosas da cidade, aquele lugar não precisava dela, existiam milhares de pessoas dispostas a fazer o que fazia por até mais barato. Parecia que todos eram zumbis engravatados, com olhares distantes como o dela. Foi então que parou, pôs seus pertences no chão da calçada e sentou-se ao lado. Procurou apenas respirar. Alguns transeuntes perguntaram se estava bem, apenas acenava que sim com a cabeça, voltava a fechar os olhos e respirar fundo ininterruptamente. Não sabe por quanto tempo ficou assim, mas em algum momento despertou, levantou-se mais calma, pegou suas coisas e foi para casa.

Nem queria olhar o facebook hoje, estava triste demais para encarar a felicidade plástica daquela rede. Nada parecia fazer sentido a não ser o preço da sobrevivência. Não sabia a quem recorrer, por onde começar a procurar, tinha pouca experiência na vida, tinha apenas 27 anos e ninguém para lhe ajudar. Porém, ao chegar em casa todo o sentimento de peso e preocupação deram lugar a um imenso alívio. Era como se as amarras que lhe fincavam no fundo do mar no sonho tivessem a libertado no mundo real. Não tinha mais que ir para aquele lugar que detestava, lidar com assuntos que não lhe diziam respeito. Sentiu-se tão livre que começou a gritar de alegria. Não fazia ideia do que ia acontecer, mas de uma coisa tinha certeza; abriu-se uma oportunidade de, finalmente, seguir seus desejos. Então percebeu que sempre tivera essa oportunidade, o que lhe faltava era coragem de enfrentar o medo do mistério que é a existência; imprevisível e deliciosa ao mesmo tempo justamente pelas suas infinitas possibilidades. Ela seguiu sua jornada de atravessar portais dos sonhos e da realidade, mas dessa vez guiada pelo amor e por um enorme desejo de mudança. Subiu no parapeito da casa mais alta e vermelha daquela cidade que visitava em seus sonhos, as pessoas estranhas lhe chamavam para baixo, pareciam felizes em vê-la. Sorria plena. O céu era um infinito de cores lindas que tinham formas diferentes… Era impossível não ficar encantada. Olívia abriu os braços e se jogou. Finalmente conseguiu voar!

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Arquivado em Rafaela Uchoa