A angustia do tempo

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Será que temos que ter sempre alguma coisa a dizer? E o som do silêncio?

A reflexão genuína abre espaço para a distração constante. Sally não consegue mais ler a quantidade de livros que lia, ela não consegue mais escrever. Ela foi silenciada?

O tempo passou terrivelmente rápido, em pensar que Sally aos quatorze anos começou sua jornada pelo mundo do pensar e questionar. O que mais desejava era romper com tudo, afinal, suas ideias não cabiam na sua realidade. Ela precisava transformar, ela precisava experimentar o tempo inteiro. Ela precisava ser subversiva, ela precisava dar um novo significado ao mundo, porque, de repente, ele parecia cada vez mais perder o sentido a medida em que ela o descobria a fundo.

Com um cigarro na boca, angustia no coração e um pouco de álcool na cabeça, Sally tenta inutilmente passar alguma coisa para o papel que na verdade virou tela do computador. Ela tomou tantos rumos diferentes que parece que algo lhe separa friamente da sina de colocar seus sentimentos em frases. Então ela pensa; o que nos distancia tanto dos nossos desejos? Seu desejo não era ser escritora, afinal? Acontece que os anos se passaram. Sally não percebeu. Ela busca reencontrar aquela menina que parecia tão genial, mas parte dela adormece dolorosamente.

Cada fio branco lhe lembra de que a rapidez que a sua vida corre hoje vai triplicar e quando ela menos esperar tudo terá passado pelos seus olhos como um filme sem roteiro. Sally recorda que essa consciência lhe atormenta desde muito nova. Por que o tempo sempre foi algo que lhe fez temer? Apesar de admirar e ouvir bastante os mais velhos que carregam sabedoria e bons intentos, Sally sempre teve medo da velhice. Não só da velhice, como de não conseguir realizar metade do que considera suas missões. Porque os acontecimentos, ah, os acontecimentos são muito maiores do que qualquer um de nós, o que torna tudo imprevisível e passível de que qualquer mudança brusca e irreversível. A vida é irreversível. Não escolhemos estar aqui, não sabemos porque estamos e, muito menos, por quanto tempo.

O tempo é uma angustia. Sally odeia o passado. Não por prender-se a ele, mas por ser um tempo que não existe. Sally odeia remoer o passado. É seu maior exercício. Porém, o gosto, o cheiro, o sabor, o sentir da nostalgia a faz voltar para a sua juventude de forma saudosa e angustiada. Não pelo que fez ou deixou de fazer, mas pelo fato de nunca mais poder viver aquilo daquela forma. Ela pode buscar recriar todas as situações, até com as mesmas pessoas, porém, tudo sempre será diferente, principalmente porque estamos em constante mutação. Jamais seremos os mesmos de segundos atrás.

Sally sorri. Ela gosta do que se tornou. Porém o tempo a assusta. A nostalgia a fez querer chorar. Uma música que a leva para os confins de vivências deliciosamente pesarosas. Do que importa descrever essas vivências se todos nós a sentimos? Agora é tudo diferente, ela tem vontade de chorar, mas as lágrimas simplesmente não vem. Acabou o drama. As cascas tomaram conta da sua ingenuidade. As coisas parecem ter um sabor um pouco mais amargo. Não por assim ela desejar, mas a soma de experiências são como uma fruta que vai amadurecendo até ficar parcialmente amarga, porém ainda boa para consumo. Ela se sente assim por vezes, mas gosta de afastar de imediato esses pensamentos. Sempre que possível. Possível. O tempo? O tempo é possível?

A subversão e a o desejo intenso de mudar o mundo ela sabe que nunca perderá. Porém, ainda falta trilhar o caminho da sabedoria para deixar fluir o tempo sem que isso lhe doa tanto. A angustia é que o tempo é curto e há muito o que fazer. A vida é um sopro.

 

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O desejo adoecido pela sociedade de controle

PawelKuczynski58

Por Paul Kucynski

  1. INTRODUÇÃO

      O presente ensaio irá analisar aspectos da sociedade de controle descrita por Gilles Deleuze no texto Post-scriptum sobre as sociedades de controle (Deleuze, 1970). Apesar do texto ter quase cinquenta anos, ele é extremamente atual, pois o controle chegou ao seu ápice, atingindo diretamente o desejo da pessoa que passa a ser controlada através da sua subjetividade.

           A fluidez e facilidade das formas de controle contemporâneas são muito grandes, possibilitando que a dominação por parte do capital seja ainda maior e mais potente na vida do indivíduo. Afinal, ele é induzido a achar que é livre em suas escolhas, mas seu desejo já está moldado para o consumo, o individualismo e consequentemente o endividamento. O encarceramento deixa de colocar o corpo dentro de um espaço e confiná-lo lá dentro, como na família, na escola ou na fábrica. A partir do fim do século XX este corpo é tutelado espontaneamente, pois ele está sob um domínio muito mais poderoso; o da sua subjetividade.

  1. DESENVOLVIMENTO DO TRABALHO

             Gilles Deleuze foi um filósofo francês que revolucionou o pensamento mundial. Seu trabalho aponta para uma teoria completamente nova da sociedade capitalista. Em O Anti-Édipo (1970) e Mil-Platôs (1980) o autor rompe com as correntes de Freud e Marx, propondo uma nova maneira de pensar o sistema capitalista. Para Deleuze, o mesmo caracteriza-se como um sistema esquizofrenizante em si, fazendo com que as pessoas adoeçam, não apenas fisicamente, mas principalmente que tenham seus desejos adoecidos. Para o autor, o desejo é base de tudo, nada existe sem o desejo e ele é o agente principal de todas as interações humanas.

         O que interessa ao capitalismo é a produção desejante, que atravessa a subjetividade para além das categorias do coletivo ou do individual, do psicológico ou do sociológico, abrindo caminho para a criação. O conceito de trabalho imaterial também perpassa por essa lógica. Os autores Negri e Lazzarato em Trabalho Imaterial: formas de vida e produção de subjetividade (2001) afirmam que o perfil do novo trabalhador é baseado na sua personalidade, não apenas na sua força braçal e mecânica. É preciso que esse trabalhador tome decisões e seja cada vez mais intelectualizado. Eles também colocam que o ciclo do trabalho imaterial é construído por uma força autônoma que organiza seu próprio trabalho e relações com a empresa. Sobre essa mudança nas relações de produção, Deleuze no texto Post-scriptum sobre a sociedade de controle (Deleuze, 1970) aponta a transição das sociedades disciplinares, onde o indivíduo encontrava-se sempre institucionalizado. Desde a família, até a escola, trabalho (fábrica), hospital e, até, eventualmente prisões. Todos esses locais exigem formas de se comportar e impõe controle sobre os corpos que antes eram contados como números. Porém ainda no século XX, essas instituições entraram em colapso e deram origem a um novo modelo: a sociedade de controle.

          A lógica é que os confinamentos funcionam como moldes enquanto os controles como modulação. O controle vai se moldando, se auto deformando para se adequar a pequenas mudanças e isso se vê claramente no principio do salário por mérito, das metas estabelecidas pelas empresas, ou até mesmo nos programas de televisão de auditório, pois, basicamente, todos fazem parte da construção da subjetividade competitiva. É assim que dentro da sociedade um indivíduo vira rival do outro, o normal é querer competir e ser o melhor. Essa é a subjetividade que vai sendo alimentada e que interessa à empresa.

          Sobre a transição da fábrica para empresa: “a fábrica era um corpo que levava suas forças internas a um ponto de equilíbrio, o mais alto possível para a produção, o mais baixo possível para os salários; mas numa sociedade de controle a empresa substituiu a fábrica, e a empresa é uma alma, um gás” (Deleuze, 1972).  A própria escola passa a ser uma empresa, dessa forma, as formações contínuas substituem a escola padrão que já moldam o sujeito para a empresa. O indivíduo é estimulado a “vestir a camisa” e “vivenciar a marca”, seja dentro da empresa como empregado ou fora como consumidor, é a partir daí que a empresa passa a assumir sua condição de alma do indivíduo, ela vira sua força motriz e isso pode acabar sendo traduzido em muito mais horas de trabalho, pois para mostrar que é um empregado comprometido, o trabalhador acaba ficando conectado em tempo integral, respondendo e-mails ou fazendo pesquisas e contatos referentes ao trabalho. Se na fábrica sua carga horária era de 10 horas, atualmente é durante todo o período em que se encontra acordado.

       A economia também altera seu fluxo neste processo. O mercado não é mais baseado no valor do peso do ouro, concreto e determinado pela balança. As trocas agora são especulativas, determinadas por constantes flutuações nas bolsas de valores e fundo de caixa que não existe. A partir do momento que a moeda não precisa mais de lastro para circular, o dinheiro passa a ser virtual. Deleuze afirma que a corrupção acha na sociedade de controle sua máxima potência, ora, com o capital flutuante é tanto mais fácil desviar uma maior quantidade de dinheiro, quanto camuflar a própria corrupção. No Brasil atualmente vive-se uma crise política motivada por uma série de interesses que vão da apropriação pelas empresas estrangeiras do pré-sal até a massa corrupta da política brasileira querendo se safar das investigações da Operação “Lava Jato”, promovidas através do governo de Dilma Rousseff. Como resultado, o país está sob um golpe de Estado que afastou a presidente idônea e a substituiu por um presidente interino com a cúpula de ministros mais corrupta da história. O desejo foi fator determinante para que o golpe acontecesse no país. A população foi bombardeada de propaganda anti-PT e, como o partido também não cumpriu sua agenda com a esquerda brasileira e ainda se envolveu em diversos escândalos de corrupção foi perdendo apoio gradativamente. A direita furiosa por ter que agora dividir privilégios com as massas versus a esquerda não representada pelo partido abriram espaço para que os guardiões da política tradicional brasileira – corrupta – pudessem usurpar a presidência, alegando um impedimento sem que haja crime de responsabilidade.  Atualmente a corrupção assola o país em uma crise política sem precedentes, onde a população está descrente dos seus representantes e com a certeza de que a corrupção é a base do sistema político brasileiro.

  1. CONCLUSÃO

           A passagem da sociedade disciplinar para a sociedade de controle tem seu ápice na informação. Através do fluxo de informações, na época de Deleuze da TV, rádio, jornais e o início da Era Digital. Hoje em dia, a internet e, principalmente, as redes sociais ganharam toda força, podendo ser classificada como a maior forma de controle da atualidade. A plataforma do “Facebook” criada por Mark Zuckerberg, é a maior rede de informação voluntária do mundo. E não a toa, o seu CEO está sempre reunido com lideranças mundiais como Barack Obama e David Cameron. O desejo faz as pessoas partilharem espontaneamente todas as suas informações; localização, gostos, pensamentos, relacionamentos, enfim. Todos os dados estão registrados, inclusive aqueles que o usuário deleta.

            Através de softwares baseados em algoritmos é possível cruzar as informações para saber todos os conteúdos que interessam da vida dos indivíduos. Basta usar o mecanismo de busca para certo lugar que os anúncios das companhias de viagem e rede hoteleira brotam nos cantos das páginas com todo um serviço de propaganda personalizado. Desse modo, o marketing se apropria também da internet. Os usuários desejam que suas personalidades sejam conhecidas, suas opiniões importem e, com isso, vão fornecendo dados para as empresas que precisam manter seu ciclo de controle da subjetividade.

Por Rafaela Uchoa

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O despertar para um sonho

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O celular a desperta uma hora antes do previsto. Mas não como um simples despertador e sim pela sua ansiedade de saber quais as novidades em suas redes sociais. Olívia acorda para fazer xixi, ao abrir os olhos a primeira coisa que seu consciente lhe diz é para ver o celular. Enquanto confere quantas curtidas recebeu, seu sono se esvai e ela passa o resto do dia cansada.

Ela trabalha num escritório de advocacia há três anos como secretária, mas queria mesmo ser pianista. Sua vó lhe ensinou a tocar desde muito pequena, mas ela não conseguiu se sustentar de música. Olívia vive cansada e insatisfeita com o jeito que gasta dez horas diárias de sua vida. Afinal, são oito horas de trabalho e mais uma hora pra ir e outra pra voltar quando o trânsito ajuda. O escritório é longe. Três baldeações de metrô e depois dois ônibus para cada trecho, ao todo dez transportes por dia só para trabalhar. A região onde fica o escritório é muito cara para se viver e seu entorno também. Os avós de Olívia moravam por lá, mas desde a geração dos seus pais para quem não tem muito dinheiro ficou impossível fazer parte da cidade, a única coisa que lhes restou foi ir para a periferia e ter o mínimo de acesso possível.

Ultimamente seu hobby tem sido sonhar. Olívia descobriu que a única hora que não se sente explorada ou sugada é durante seu sono. Ela correu atrás de alguns livros sobre o assunto. Um deles fala sobre um cara que aprende a sonhar com um sábio índio espiritualista. Ele afirma que existem universos paralelos no mundo do sonhar que também são reais e podem até influenciar nessa realidade.

Olívia lia antes de dormir com algumas interrupções para a checagem no celular se suas fotos e mensagens dos amigos e parentes tinham tido boa aceitação. Na vida prática, Olívia tinha duas amigas, uma desde a infância e outra que conhecera no trabalho, mas nas redes sociais tinha literalmente mais de mil amigos, a maioria nunca conheceu pessoalmente. Apesar da popularidade virtual, Olívia se via muito cansada de tudo. Sentia que a cada dia abdicava mais dos seus desejos e vivia sendo levada pelas obrigações. A falta de dinheiro, o trabalho maçante, a necessidade de compartilhar suas fotos no facebook buscando aprovação eterna para sua aparência e seus gostos, tudo isso lhe desanimava profundamente, mas não sabia como fazer diferente. Olívia estava a espera de uma salvação que estaria em qualquer lugar menos nela.

Sobre o significado do sonho existem duas visões predominantes; uma se caracteriza como a experiência de sentir e vivenciar situações diversas durante o sono e a outra diz respeito aos desejos e metas que a pessoa tem. Olívia até agora não tinha conseguido concretizar nenhum de seus sonhos, nem o de ter tocado numa orquestra, nem o de viajar pra fora do Brasil, nem o de escrever um livro. Viveu um sonho, mas ele acabou muito rápido. Amou e foi amada, mas perdeu seu amor num acidente de carro. Ela sabia que se não mergulhasse em outra forma de viver, de sentir e tornar-se, não resistiria. A depressão é a doença do século, Olívia tinha medo de ficar deprimida, pois assistiu sua mãe definhar até a morte por ser maníaco depressiva. Desde que descobriu que pode sonhar, achou algum sentido na vida.

Ao estudar os sonhos Olívia descobriu que podia ficar consciente dentro deles e até mudar seu conteúdo de acordo com sua força energética. Ela quer muito conseguir fazer viagens pelos países e planetas que sonha conhecer através do que alguns chamam de “projeção astral”. Para isso ela precisa de prática e mudanças em sua percepção. Logo percebeu que querer se sentir especial de alguma forma, seja através da internet, das roupas, das mentiras que às vezes contava pra desconhecidos para os impressionar, nada disso a fazia evoluir. Ao se sentir especial, ao achar que a auto importância é primordial, ela passa a quebrar a corrente de energia que une tudo e todos e começa a subjugar o outro. Olívia percebeu então que é daí que nasce o desejo de poder. Esse desejo é o que faz bilhões de pessoas como ela serem exploradas diariamente apenas para conseguirem o básico para sobreviver, enquanto seus chefes, braços fortes da engrenagem perversa do capital engordam suas contas bancárias e bens. Quando pensava demais em tudo isso, se sentia cada vez mais sem saída e sozinha. Na verdade sabia que a maioria da população mundial vive em situação muito mais precária que a sua. Por isso, se sentia mais sozinha, já que estão todos no mesmo barco e a maioria não se dá conta ou não sabe como escapar dessa prisão. A multidão solitária está cada vez mais neurótica e infeliz, sentia um arrepio frio e ácido no peito ao se dar conta disso tão claramente.

         E que solidão é essa para quem tem mil amigos na internet? Ficava mais tranquila quando postava um pensamento que as pessoas gostavam ou uma imagem que atingisse muitos comentários. Mas quem são essas pessoas do outro lado? O que é revelado delas nessa exposição desenfreada de tudo que se quer que o outro saiba? Por vezes, se sentia ridícula de fazer parte disso. Como fazer parte de uma rede onde muito se fala e nada se vê? Como achar caminhos para mudar o rumo da vida de todas essas pessoas, incluindo o dela mesma? Um caminho que aponte não apenas para a auto importância, mas para a noção de que precisamos todos uns dos outros e que todos somos importantes. É tão difícil que essa concepção caiba numa realidade que separa por metros pessoas em situação de rua comendo os lixos que os magnatas que moram nos apartamentos de 500m² produzem…

Olívia respirou fundo seguidas vezes até pegar no sono, aprendeu essa técnica em um livro, sua aventura começava naquele instante. Ela estava no meio da rua na Time Square em Nova Iorque, tal e qual via na internet. O relógio corria mais rápido que o normal e os carros começaram a passar por ela apressados, tinha que desviar de todos eles até que sua consciência despertou. Lembrou que estava sonhando e que poderia sair dali se usasse sua concentração e energia para isso. Então, fechou os olhos e quando os abriu estava em outra cidade, uma cidade que só parecia existir ali naquele mundo. Já sabia que os seres que via por lá eram pessoas, mas elas tinham formas e cores estranhas e seus rostos não eram nítidos. Olívia já esteve naquela cidade antes, mas não conseguia lembrar em qual circunstância. Ao caminhar pela bonita paisagem do lugar, viu plantas e animais exuberantes, diferentes dos que veria por aqui. As casas seguiam uma ordem de degrade de cores. De um lado o degrade de cores frias e do outro um degrade de cores quentes. De repente aquele cenário começou a se esvair como uma fumaça e quando se deu conta, estava no fundo do oceano, com correntes presas em seus pés. Tentava se soltar em vão, ar não lhe faltava, mas a agonia de não conseguir se soltar era imensa. Até que lembrou que se usasse sua concentração poderia sair dali, mas diante de tanta tensão preferiu tentar acordar até que conseguiu.

Olívia saltou da cama como se finalmente tivesse tirado aquela amarra dos seus tornozelos. Sua respiração ainda estava ofegante quando olhou para o relógio e viu que estava uma hora atrasada para o trabalho. Entrou em pânico porque tinha que acompanhar uma reunião importante de um dos advogados da empresa. Mas somente uma hora e meia depois chegou ao escritório. A reunião já havia acabado e ela foi demitida por tê-la perdido. Nunca havia cometido um deslize, seu atraso máximo foi de quinze minutos e nada disso foi levado em consideração, mas para ela também não importava, pois o desespero tomou conta da sua mente; como iria sobreviver daquele minuto para frente? Andava errante e perdida pelas esquinas luxuosas da cidade, aquele lugar não precisava dela, existiam milhares de pessoas dispostas a fazer o que fazia por até mais barato. Parecia que todos eram zumbis engravatados, com olhares distantes como o dela. Foi então que parou, pôs seus pertences no chão da calçada e sentou-se ao lado. Procurou apenas respirar. Alguns transeuntes perguntaram se estava bem, apenas acenava que sim com a cabeça, voltava a fechar os olhos e respirar fundo ininterruptamente. Não sabe por quanto tempo ficou assim, mas em algum momento despertou, levantou-se mais calma, pegou suas coisas e foi para casa.

Nem queria olhar o facebook hoje, estava triste demais para encarar a felicidade plástica daquela rede. Nada parecia fazer sentido a não ser o preço da sobrevivência. Não sabia a quem recorrer, por onde começar a procurar, tinha pouca experiência na vida, tinha apenas 27 anos e ninguém para lhe ajudar. Porém, ao chegar em casa todo o sentimento de peso e preocupação deram lugar a um imenso alívio. Era como se as amarras que lhe fincavam no fundo do mar no sonho tivessem a libertado no mundo real. Não tinha mais que ir para aquele lugar que detestava, lidar com assuntos que não lhe diziam respeito. Sentiu-se tão livre que começou a gritar de alegria. Não fazia ideia do que ia acontecer, mas de uma coisa tinha certeza; abriu-se uma oportunidade de, finalmente, seguir seus desejos. Então percebeu que sempre tivera essa oportunidade, o que lhe faltava era coragem de enfrentar o medo do mistério que é a existência; imprevisível e deliciosa ao mesmo tempo justamente pelas suas infinitas possibilidades. Ela seguiu sua jornada de atravessar portais dos sonhos e da realidade, mas dessa vez guiada pelo amor e por um enorme desejo de mudança. Subiu no parapeito da casa mais alta e vermelha daquela cidade que visitava em seus sonhos, as pessoas estranhas lhe chamavam para baixo, pareciam felizes em vê-la. Sorria plena. O céu era um infinito de cores lindas que tinham formas diferentes… Era impossível não ficar encantada. Olívia abriu os braços e se jogou. Finalmente conseguiu voar!

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Pra onde vamos?

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Estamos cada vez mais longe de nós mesmos. A multidão solitária se espreme nas cidades comendo vidas e procriando esgotos. Afastando-se da essência pra correr atrás de sorrisos e apertos de mão que você não quer dar. Aqueles que dizem marchar para Jesus tem marchado cada vez mais rumo ao ódio, a intolerância e até a homicídios daqueles que em suas igrejas são chamados de “irmãos”. O ódio só cresce, a caretice impera, ninguém pode ser legitimado como diferente sem sofrer algum tipo de violência. Todo dia morrem gays no Brasil por crimes de ódio. Todo dia morrem negros pelo mesmo motivo. Todo dia mulheres tem sua vagina, fruto de vida e prazer, violadas e estupradas pelo simples fato de serem mulheres. A crueldade é crescente e a ganância também. Os ciclos estúpidos: escola, academia, diploma, 99 horas de trabalho para 30 minutos de diversão. Uma vida inteira de tristeza para um dia de alegria. Correr atrás de dinheiro é a única solução, pisar na maioria das cabeças é apenas consequência. Lágrimas, solidão, ódio, homicídio, pobreza, miséria, desprezo, intolerância, facadas, estupro, tiros e mais tiros. Ei! Pra que a pressa? Pra onde vamos?

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O sobrevoar de uma vida entre universos paralelos

     Quando Heloísa deixou sua casa naquela manhã de domingo não imaginava o que também estaria deixando para trás. Não pretendia nada mais que uma caminhada naquele dia ensolarado. Acordara com os raios de sol discretamente expostos no teto como as linhas de Nazca vistas do alto. Sorriu ao despertar, sentia-se plena e cheia de energia. Deu bom dia ao seu irmão mais velho que dividia apartamento com ela, vestiu-se e foi andar pela rua no pretexto de tomar um suco.

      Fazia calor em São Paulo e Heloísa andava confortavelmente pela calçada até que avistou Rezon na bancada da lanchonete que estava indo comprar o suco. O rapaz era filho de judeus refugiados da Ucrânia durante a Segunda Guerra Mundial, muito bonito e cordial. Heloísa sentiu um palpitar estranho no peito ao deparar-se com Rezon que não chamava a atenção dela apenas pelo tipo físico, já havia conhecido muitos rapazes bonitos, mas aquele tinha algo em seu espírito que de alguma forma precisava se conectar com o dela. De repente, Heloísa sentiu um tremor e formigamento nas mãos tamanho que não pensou em outra coisa a não ser voltar pra casa em passos de fugitivo. Ela podia tentar, mas o acaso não a deixaria escapar de viver uma história de amor com Rezon.

       No dia seguinte ao que o conheceu, Heloísa se deparou com o rapaz na sua classe da faculdade, daí a eles se aproximarem foi apenas questão de dias e, mesmo com as diferenças culturais, os pais de Rezon se sentiam muito grato aos brasileiros por terem os acolhido bem, por isso, não faziam vista grossa ao namoro dos dois, mesmo no fundo preferindo que Rezon se relacionasse com uma mulher judia em função das leis da Torá. Heloísa e Rezon namoraram por quatro anos e ao concluírem a faculdade decidiram morar juntos. Era impressionante aos olhos de todos como os dois se davam bem e se amavam verdadeiramente. Era um casal que brilhava quando estava unido, parecia que um exaltava o melhor do outro numa simbiose fantástica. Foi uma união de muita felicidade e troca, até o dia em que Rezon e Heloísa estavam tomando um suco na mesma lanchonete que ela havia o visto anos atrás pela primeira vez. No momento em que ela foi ao banheiro ouviu um estrondo e gritos, ao virar-se de costas viu um carro que esmagava Rezon contra o balcão da lanchonete matando-o na hora.

       A partir daquele dia Heloísa começou a ouvir estranhas vozes que variavam entre o que parecia uma senhora de idade que lhe dava sermões o tempo todo e outras desconexas que não paravam de sussurrar-lhe frases ininteligíveis. Heloísa acabou sendo submetida a um tratamento psiquiátrico, muito pouco convencional pra época, com um psiquiatra que estava experimentando investigar a loucura não só por meio de psicoterapias ou pela investigação psiquiátrica convencional, ele queria descobrir causas espirituais para os transtornos psíquicos de seus pacientes.

     Heloísa não se tornou uma psicótica agressiva, ficava muito mais em seu mundo, introspectiva e de poucas palavras. Suas crises estavam instaladas quando ela saia andando por aí, parava, olhava para o que parecia o nada e fazia gestos suaves com a mão, como uma mímica, sempre na menção de expulsar alguma coisa que estava lhe falando ou aparecendo. Ela não chegava a ficar nervosa, espernear ou gritar, o problema é que muitas vezes se perdia andando a ermo e a equipe terapêutica passava horas, às vezes, dias procurando-a pelos arredores do sítio onde ficava instalada a base do médico e sua equipe.

    Após um ano de tratamento, os chamados “sensitivos” foram juntando minúcias e descobriram, através de hipnose e regressão, o que parecia ser uma explicação para a voz da senhora idosa que aturdia os ouvidos de Heloísa. Em outra vida, ela teria sido a avó do espírito de Rezon que era uma menina que morreu aos nove anos ao cair de uma carroça de cavalo que a mãe guiava rebeldemente após uma briga com a avó de Rezon. A mãe era Heloísa que na outra vida nunca se perdoou por ter guiado imprudentemente a carroça causando a morte de sua filha.

      Com isso em mãos, a equipe do psiquiatra inventivo tentava muitas vezes tratar diretamente com a vó do espírito de Rezon para que deixasse Heloísa em paz nessa vida que ela já havia sofrido muito e continuava sofrendo com o cumprimento do seu carma. Heloísa teve significativo progresso nesse tempo e resolveu voltar pra casa dos seus pais. Após alguns meses, mostrando plena melhora, sentiu que precisava buscar mais respostas do mundo espiritual e mudou-se para uma aldeia de índios no interior. Lá experimentou diversos rituais com ayahuasca, sempre na busca de acertar suas contas por si mesma com o seu passado espiritual.

       Já haviam se passado dois anos que Heloísa estava morando com os índios até que numa madrugada, após uma forte pajelança, ela foi dormir e sonhar. O sonhar que havia aprendido com os índios era diferente do simples emergir do subconsciente, havia aprendido a atravessar os portais do sonho e, através dele, visitar outros universos paralelos, até mesmo, quem sabe, os mesmos que as perturbavam quando ela estava em “surto psicótico”. A Guerreira, como sugere o significado do seu nome, foi fundo demais ao atravessar os portais dos sonhos e ao deparar-se com uma dimensão que a libertou de todo o seu passado, resolveu ficar por lá e não acordou mais. Sua matéria virou uma luminosa partícula que foi desprendida à imensidão do universo; do real e dos paralelos.

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A força do verdadeiro

Desse lado é a voz de quem vive que fala mais alto. Diante de seus ternos e cartões de visita há uma plebéia que não agüenta sentir seu cheiro de perfume caro misturado com sebo de alma. Só conseguia sentir nojo daqueles lobistas bilionários proferindo aos sete ventos que eram a “elite pensante do Brasil”. Tá pra nascer elite mais ignorante! O povo, mesmo sem acesso a digna educação, está muito mais ciente do caos coletivo do que aqueles que ainda herdam um sobrenome ou uma grande empresa.

É quase uma prostituição ter que trabalhar num ambiente em que as pessoas te olham de cara feia, apenas porque você está transitando entre as mesas deles. Minha sorte foi que, passado esse pesadelo de perder algum tempo de vida junto a grandes empresários (que no fim se misturam a mim, já que estávamos todos lá por dinheiro), eis que sinto vida de verdade.

Ágata, 28 anos e muita história. Sentada na “cadeira da verdade” contou que seu irmão a levou pra zona, falando que lá ela ganharia dinheiro de fato. Ele já estava na vida há algum tempo e ela de cara curtiu. Ágata possui uma imponência ao falar que ninguém duvidou do seu amor à profissão. O agito, a noite, as possibilidades, inclusive, de uma vida mais rentável se tornaram sua paixão. A boate estava vazia, não havia trabalho para aquela noite, portanto, ela pôde contar sua trajetória sem nenhum incomodo. Já foi casada, já teve homens aos seus pés. Mas não conseguiu largar da vida pra vida normal. Amélia? Dona de casa? Sem movimento no universo? Jamais. Um belo dia chegou em casa de manhã, o marido esperando. Onde você estava? Na zona, não agüento mais. E foi o seu grito de adeus, sua alforria para uma vida que muitos consideram prisão. Pra ela é liberdade. Sim, liberdade! Pros que vivem a margem não há julgamentos. Há apenas existência, diversão e sobrevivência. Foi por essas três coisas que Ágata resolveu voltar pra zona e é feliz até hoje.

Já a Jessica, com uns 30, tem quatro filhos, é puta e os cria com muito amor. Agradece a deus por não lembrar do rosto do sujeito que é pai da sua filha mais nova. Tava doidona e não lembra, a filha é só sua, assim como seu corpo. Ela conta que os filhos salvaram sua vida, são a sua motivação. Trabalha ali profissionalmente, já que o que gosta mesmo é de mulheres. Fala da sua namorada com ternura, em meio à uma retrospectiva de clientes.

A doce e meiga Rúbia parecia uma garota de 17 anos, com RG de 35. Muito sensível e de bom coração, desistiu de descer da áreazinha aberta onde estávamos para ver se havia clientes e ficou conosco a noite inteira. Contou de suas filhas, que de um acidente do acaso, viraram suas grandes paixões. A idade varia pouca coisa, mas o amor é imenso. Uma doçura sagaz, intensa e verdadeira a da Rúbia.

Foi um fim de noite muitíssimo agradável ao lado de todas essas mulheres de verdade. Conhecemos as outras garotas e todas se sentiram muito a vontade pra dividir suas histórias, tristezas e alegrias conosco, mesmo que por poucas horas. A empatia foi tanta que uma de nossas amigas estava fazendo aniversário e, no meio de um papo astrológico, assim que elas souberam puxaram um parabéns que tenho certeza que nenhum de nós vai esquecer.

Posso dizer que nesse dia fui salva. Salva pela simplicidade, força e beleza dessas mulheres. Ao contrário dos pingüins de terno que tive de agüentar horas antes, pude cruzar com olhos que gritam “intensidade” o tempo inteiro. Abençoadas sejam as putas.

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Incógnita

Sobre uma breve e nova paixão o que tenho que dizer? Sobre acordar depois de um sonho num paraíso indescritível ao lado de você mesmo. Acordar, olhar para as paredes, ver que tudo continua ali escrito, olhar para o lado e ver que o celular continua com muitos alertas. Olhar para o travesseiro e ver a possibilidade de um resgate.

Ao mesmo tempo em que tomo banho, olho pela janela a vastidão do mar que parece se mexer. Daí percebo que toda a casa está se movendo junto.  Fecho os olhos e imagino uma chegada linda, me percebo perto de tudo aquilo que me faz florescer.  Até que estaciono.

Cortinas de plantas se formam diante do rio imenso que surge ao lado do mar e de todas as criaturas multi coloridas que despontam desse devaneio.  Pensei em viajar, escrever, sentir algo… Como o que sugerem de fulgás. O negócio é que venho sentindo demais, tenho sonhado demais, venho vivido pouco. E no sonho tudo é esplendor. Eu não tinha que doer porque eu não escrevia. Se fugir da dor é simplesmente não ouvir o amor estou a salvo. Tudo se move, mesmo o que não parece fluído vira. E o que tem que doer, dói. E o que tem que fluir…Flui.

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