Na porta do quarto esperava. O corredor estava aglomerado, a fila de homens aumentava escada abaixo. Ela olhava para o teto, no momento em que ele surgiu. Eles entraram no quarto, ela fez o de sempre. Era o último da noite. Ela foi tomar banho, de fora ouvia Bandeira Branca tocando. Ficou muito entusiasmada, era hora da diversão. Voltou ao quarto e fez de si uma mulher deslumbrante. Vestido justo preto, desenhando suas belas formas, batom vermelho que ressaltavam seus lábios desenhados, salto alto e um belo sorriso marcado no espelho.
A escola de samba estava tinindo. Ela cumprimentou seus vários conhecidos e sentou numa mesa sozinha, pois fazia questão de tomar sua cerveja sentada e antes de qualquer coisa. O garçom a serviu e ela tomou o primeiro gole. Era muito gostoso observar os presentes e apreciar sua cerveja. Olhava atentamente para as pessoas. A maioria estava eufórica, dançando sem se importar com o amanhã. Ela tomava sua cerveja e sorria ao ver toda aquela gente curtindo. Resolveu escrever um pouco, apreciava a solidão alcoólica junto a uma mini criação literária. Pegou um guardanapo, uma caneta na bolsa e fez um ponto no papel branco. O inicio era sempre o mais difícil. Ao pensar isso, riu consigo, pois na vida o inicio é o mais fácil, o meio e os fins que são sempre dolorosos. Apesar disso, conseguiu esboçar a 1ª linha de sua prosa. Era isso, começa-se sem saber o meio ou o fim, é isso que torna espontâneo.
Quando já estava lá pelo 3º parágrafo e sem ter uma história ao certo veio uma vontade incontrolável de fazer xixi. Já tinha bebido uma garrafa e meia. Pra não perder a mesa, ela pediu para que um rapaz do bar, seu conhecido, olhasse pra ela enquanto ela ia ao banheiro. Foi correndo até lá, o bendito já estava pra sair. Não tinha ninguém, ela entrou de uma vez, mal abaixou a meia calça e a calcinha e o jato já se formou. Sensação de alivio completa, apesar da posição malabarista não ser nem um pouco confortável. De cócoras em cima da privada, a bolsa numa mão e com a outra segurava a fechadura do banheiro que não fechava. Um dilúvio se fazia por entre suas pernas, intermináveis aqueles 500 ml de cerveja. Contava os quadrados do azulejo da parede azul a sua frente, até que olhou pro chão e viu uma caixinha de música bem ao lado da lixeira e de uns poucos papeis caídos. Xiiiiiiii. Xixi interminável. E a caixinha de musica atraiu totalmente sua atenção. Finalmente terminado o fluxo aparentemente incessante de urina, ela foi direto na caixa de música. Abriu sem nenhuma esperança que funcionasse e realmente não funcionou. Musica não tocou, mas lá dentro estava a bailarina rodando e a frase “Tudo está cheio até a borda” escrita no pequeno espelho da caixinha.
Ela voltou para a mesa com a caixinha. A frase, obviamente, não saia da sua cabeça. Sim, até ela estava cheia até a borda, e o pior era não conseguir esvaziar-se num texto, no samba que estava ou mesmo em sua profissão. Mas isso não era o mais importante… Mas quem teria deixado aquela caixa ali? E por que a frase? Rapidamente veio a cena na sua cabeça. Um cliente apaixonado por uma prostituta tentou com que ela virasse uma mãe de família, cristã e moralista, mas ela recusou-se e esse foi o presente dele para ela que o jogou fora no primeiro lixo de banheiro que achou. Riu alto com sua estória fantástica, mas pensou que era uma boa trama para o conto que nunca lhe saia. Amassou as duas folhas de guardanapo nas quais tinha escrito nada com nada, pegou uma nova e escreveu uma palavra, até que uma colega sua chegou aflita. Amiga, o Tonhão ta atrás de mim. Tem duas diárias que não dou a ele, desafiei mesmo… Ele disse que vai me matar. A primeira palavra do guardanapo foi “amor”. Ela olhou firme para a amiga e disse; fica aqui, nada vai te acontecer, esses exploradores de merda não tem mais direitos, você falou com a Tatinha? A amiga disse que sim e que ela não podia fazer nada, porque ele que cuidava da milícia quando ela aparecia querendo fechar a zona. Ela já sabia disso, só citou a cafetina pra tentar acalmar a amiga. Viu aqueles olhos esbugalhados diante de si e, ao mesmo tempo, olhou para o lado e viu o Jeferson, seu velho conhecido, policial.
Ela se levantou e o cumprimentou. Sua amiga ficou estática olhando para os dois, já tinha entendido o que ela pretendia. Estava combinado, Tata pagaria uma porcentagem do seu trabalho em troca da proteção do Jeferson e logo o gigolô não ia mais incomodá-la. Ela falou para a amiga relaxar e puxou os dois para dançar, não era mesmo hora de escrever. Em meio a muito samba e suor, Tata conversou com Jeferson e eles se acertaram. Ela ficou feliz em proteger a amiga e viu que aquela era a hora de se deixar levar pela música. Afinal, aquele foi um dia exaustivo de trabalho e sem um conto produzido. Jeferson migrou para o grupo dos colegas e ela e Tatá sambaram como loucas. Alguns homens as paqueravam, mas ela se sentia cansada demais pra dar bola pra algum deles e Tatá nem os via. A bateria da escola pulsava em cada um dos corações presentes, e ela sorria extasiada. Foi quando ouviu o barulho de um tiro. Olhou em sua volta, nem todo mundo tinha ouvido, nem ela tinha certeza se fora realmente um tiro. Até que olhou para sua amiga, no mesmo momento em que ouviu o segundo tiro. Tatá caiu no chão ensangüentada. Ela caiu por cima do corpo da amiga de desespero, gritava sem parar, a musica ainda não tinha parado. Depois do terceiro disparo a escola em peso entrou em pânico. Algumas pessoas corriam, outras se abaixavam. Jeferson foi correndo até as meninas, até ser atingido pelo quarto tiro. Ele caiu com a cabeça por cima da barriga de Tata. Tonhão se aproximou dos três, suando como um porco e gritando que não tinha medo de nada, não tinha medo de ninguém. A multidão gritava apavorada, Tonhão deu mais um tiro pra cima e mandou todo mundo calar a boca. Ele apontou a arma para ela, seus olhos se esbulharam; Não faz isso, Tonhão. Relaxa, cara, eu não te fiz nada. As palavras dela soaram como agulhas em seus ouvidos, ele puxou o gatilho e atirou na perna dela que caiu por cima de Tatá ensangüentada. Vai proteger sua amiguinha vai, agora tu e ela se foderam! Tonhão se aproximou, sentou de joelhos ao seu lado e sussurrou no ouvido dela: Seu desejo não é maior que o meu. Logo em seguida, levantou-se e quando apontou a arma para a cabeça dela sentiu uma bala perfurando sua coluna vertebral e caiu no chão. Era a policia. Ela não sabia se sentia alivio por não ter morrido ou se sentia mais medo da reação dos PMs ao verem que um dos seus foi assassinado.
Ela recorda desse dia como um triste e sangrento transbordar, sem bailarinas ou caixinhas de música.




a menina só tinha doze anos
Eram três horas de uma madrugada espelho fosco quando eu entrei no brega central de cachoeira e as putas solitárias desenhavam tristezas em um olhar sinédoque implorado e esquecido. O feriado nacional chegava e ainda noite estrelas caiam pra longe dali. Sentei e uma puta que aparentava quatorze anos se aproximou e seus passos fracos tremulavam socorros.
- O que o senhor quer?
- Cerveja e cigarros.
Ela me deu um beijo afrásico no meu ouvido esquerdo e saiu soletrando silêncios. Um tempo curto e de volta com os pedidos sentou ao meu lado.
- Quer companhia, ou deseja ficar só.
Eu não disse nada, mas segurei seu braço e toquei com os dedos sua coxa direita e era macia a infância tocada e náuseas e desejos se misturavam no terror do meu tocar. E pirilampos saiam de seus gestos em direção a brinquedos perdidos.
- Quantos anos você tem?
- Vinte e cinco – ela arriscou.
- Quinze – eu disse
- Vinte – ainda insistiu
- Quatorze – falei autoritário
- Dezesseis – disse inaudível, vencida
- Quatorze – eu afirmei imaginando famílias famintas em dias violetas e rezas errantes e um eterno reduplicar misérias.
- Tá bom quatorze, mais não diga que eu disse. O senhor não é pólicia, é? Ela então desabou em uma amência latente e medrosa.
- Não. Não sou da policia e estou adorando sua coxa. Quanto é?
- Sete do quarto e 20 meu. Tá caro? Ela disparou como um colt antigo e esperanças faiscavam seus olhos enquanto suas pernas dançavam uma indigente abertura ensaiada
- Não, tá excelente. Você já foi quantas hoje?
- Três. E eram todos velhos. Mais velhos que o senhor. Um nem quis botar dentro. Gozou em meus peitos – Uma pequena repugnância alterou seu rosto infante.
- Bem, vou beber e depois nós vamos pro quarto.
Ela acendeu um cigarro, colocou na minha boca, e depois acendeu outro e tragou desgraças inteiras de lembranças amassadas e distantes e começou a tossir. Sorriu e continuou o trabalho em meu ouvido: beijos, mordidas e carinhos gelados de uma flor em desesperos caiados de mel e framboesa numa noite de punhais e solidão mortífera.
Bebi calmamente a minha cerveja, e pelo canto dos olhos observava os clientes chegarem, e levarem suas sofridas e pesadas cargas pros quartos, eles andavam como em direção do patíbulo com seus pesos transpassados de intermináveis realidades encravadas em passados inenarráveis e para sempre calados nos peitos covardes.
Numa mesa distante da minha, uma briga ensaiava sangue e a dona com segurança calou os estômagos e manteve o azul da noite em deleite agonizante a esperar tragédias futuras.
Ali as tragédias eram todos nós, e nossos espermas cortantes de delírios trêmulos, de nojentos fluxos de covardias aprendidas em uma vida castrada e cega, com odores calados e tardes escuras nas noites em fugas.
Acabei a cerveja e a coloquei no colo e depois a levei pro quarto.
- Como o senhor gosta?
- Na bunda.
- Na bunda é cinco a mais. – Ela disse e suas palavras eram facas bêbadas nas consciências inexistentes.
Suas roupas caíram e uma nudez criança impunha um céu roxo enquanto musicas de morte me fazia sorrir e sorrir.
Dei mais cinco pra ela e ela sorriu um sorriso dor e decepção.
Ataquei seu corpo bebê e numa irredutibilidade isentálpica, consolidei meu existir numa crueldade libertária e cristã.
Rezei um pai nosso e enfrentei aquela bunda medrosa e numa isagoge lenta e perversa adornei a noite com um crime de amor.
E em tempos eternos, senti dor e prazer na cama fria, que amaldiçoava a minha vida, e o ísquio criança dolorido lamentava flores.
Dei por encerrado o serviço e a menina me olhou e chorando falou
- O senhor é o primeiro que faz isso com amor.
- Eu detesto o amor. Mas, amo putas e sexo. E você é uma criança azul de jardins de pedras com cactos e dor. Cuidado menina eu sou um matador, saia do quarto pois depois do sexo é sangue que eu quero.
Ela saiu sem acreditar e ainda teve tempo de por meu pau em sua boca para um ultimo beijo e eu me vesti e voltei ao salão, onde bebi mais uma cerveja e fuzilei com o olhar um ambiente tosco e ladino e meu cérebro era vitória e aquela velha sensação intolerante quebrava minha rotina e exigia atenção e na minha frente corpos obductos e caveiras e dejetos humanos a rir e chorar palavras de paixão com seus passos de fechaduras e desatenção, numa noite vermelha, onde a minha canção de morte agora era só um questão de espera e epistemê.
Ronaldo braga