O eu além da janela

By Audrey Kawasaki

Ela simplesmente despertou. A janela estava completamente aberta e os raios de um sol promissor tocavam-lhe as pernas. Ela sentiu ainda mais calor ao ver-se entrelaçada a ele. Ao mesmo tempo em que sentia a agonia da alta temperatura, sorria ao ver-se enlaçada com seu amor. Ela desencaixou as pernas das dele vagarosamente e levantou-se.

O sol brilhava além da janela. Não sabia se sorria ou se mal dizia àquele lindo dia. Por um segundo sentiu-se apática. Tudo poderia ser tão vivo, mas não sentia nada. Resolveu fazer um café para acompanhar seu primeiro cigarro matinal. O primeiro gole lhe fez pensar no quanto o líquido é eficaz. Não importa se as portas forem fechadas para sua passagem, ele simplesmente passa. Ela riu ao perceber seu pensamento infantil.

Quando ele acordou, ela estava no banho. Olhou para a claridade que lhe incomodava, protegeu-se com as mãos e alcançou a cortina para fechá-la. Um longo bocejo até ir a cozinha servir-se de café. Enquanto saboreava o líquido negro, pegou a caixa de medicamentos na prateleira. Tomou o comprimido de Leponex com água. Ela fluía com uma força incrível de seus dentes até sua garganta.

Vestia-se à medida em que se sentia estranha. Seus músculos pareciam dar pequenas fisgadas e sua sensação era de uma dormência por todo corpo. Uma voz lhe soava doce no ouvido “você vai se machucar”. Ela fechava os olhos e cantarolava qualquer coisa para se livrar do que ouvia. De repente, a voz sumiu e ela foi ao encontro dele que preparou torradas frescas. Ela falou sobre o calor. Ele profetizou sobre o dia; “será um dia difícil”.

De fora da janela, um espanhol andarilho vendia seu artesanato feito com folha de bananeira. Parou diante de um jovem distraído no ponto de ônibus e pediu para que ele visse suas criações. O rapaz tirou os fones de ouvido e disse-lhe que já conhecia o seu trabalho, mas só estava com o dinheiro do ônibus. O vendedor continuou a dar seus preços e disse não se lembrar do rapaz. Ele insistiu que o conheceu na frente de um bar próximo, elogiou seu artesanato e novamente falou sobre a falta de dinheiro. O espanhol finalmente lhe perguntou se ele tinha, pelo menos, uma moeda. O rapaz apalpou os bolsos da calça e achou 75 centavos. Entregou-lhe. “Desculpe, é tudo que tenho a mais”. Foi então que o artesão lhe falou para escolher qualquer peça do seu trabalho. O jovem ficou encabulado, disse que não precisava, ele fez questão e o moço escolheu um pequeno enfeite que, na sua cabeça, formava uma tartaruga. Os dois agradeceram emocionados e se perderam no mundo. Antes disso, o jovem lhe deu mais 5 centavos que achara no seu bolso numa segunda busca desesperada.

Ela gritava, chamava-o de monstro, de escroto. Ela pegou o elevador e desceu a rua em direção ao centro de tratamento dos dois. Aquela era a sua segunda casa, mesmo guardando certo rancor da instituição e de seus profissionais, aquele era o seu segundo refúgio. O rancor não era proveniente da forma que era tratada, mas da imagem sólida de seus medos e fraquezas que ali ficavam projetadas. Anos e anos de tormento e solidão, numa história que, mesmo compartilhada, era só sua. Isso era mais que o bastante para doer, para fazer gritar. Ele correu aflito atrás dela, sabia o tamanho do seu sofrimento que, naquele momento, conflitava diretamente com o seu. Frases inteligíveis tilintavam em seus ouvidos, ele as ignorava.

Ela chegou completamente perdida. As imagens em sua volta eram rabiscos compostos de tantas cores que lhe corroíam a alma. Não podia suportar tanta dor. Gritava! Berrava! Contava seu sofrimento através de seus olhos desesperados. Os profissionais se alarmavam, foram para junto dela, queriam ouvi-la. Naquele momento ela os via como traidores. Cúmplices daquele que julgava um canalha. Eles estavam de acordo com tudo que a perseguia, do seu marido aos soldados nazistas. O barulho dos coturnos marchando a incomodava crescentemente. Olhava ao seu redor em desespero. Como ninguém podia ouvi-los? Como ninguém a ajudava a se esconder desse terror de farda que ameaçava-lhe matar? A única arma que tinha era sua voz. Ele, finalmente, chegou até ela e a pediu desculpas, pediu que voltassem para casa. Os olhos dela não podiam acreditar ao vê-lo. Por que a expulsara de casa apenas com a roupa do corpo? Por que mostrava quase nenhum amor? Por que sempre tinha que surtar ao brigar com ele? Nada disso veio na sua mente, apenas no seu corpo. Ela continuava vendo soldados, agora os milicos da ditadura. Ouvia, novamente, seus coturnos explodirem contra o chão. Olhava nos olhos dele e via sua face derretendo em puro terror. Ninguém pôde ajudá-la. Ele tentava recuperar os olhos dela. Ela gritava. Não via mais nada. As vozes se apossaram do seu corpo. O grito era a forma mais terna para externar toda sua angústia. Ninguém tinha dimensão do que se passava. Os estagiários anotavam em seus cadernos as reações e o que achavam significativo para compor seu diagnóstico. Os profissionais “responsáveis’ tentavam acalmá-la segundo as cartilhas psicanalíticas os ensinara. Seus métodos eram em vão, não haviam aprendido nada. Não haviam aprendido a viver sem regras, tudo não passava de uma interpretação. Prontuário: Mais uma crise devido à briga conjugal.

Suas lágrimas eram como espinhos em seu corpo. Agora não podia mais tentar cortar seus pulsos, estava numa ambulância e todos a vigiavam. Depois de ter ouvido dela que ele acabara com sua vida, ele decidiu ficar lá. Não a acompanhou, “isso acentuaria sua crise”, disse alguém.

E lá estava ela, novamente na emergência após apenas quatro semanas depois da última vez. O motivo? Aparentemente ele seria o causador. Mas o pior é que não há causador. Ela não teve escolha. “Não queria ficar assim, por que eu surto?”, soltou ela da penúltima vez que nos encontramos, há pouco tempo atrás. Eu a confortava, mas não tinha a mínima idéia da resposta para sua pergunta. E hoje não fui capaz, se quer, de aproximar-me dela, pois, além de não acreditar em interpretações, ainda não posso dar-lhe uma resposta digna.

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Arquivado em Rafaela Uchoa

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