Despertou com raios de sol iluminando sua face, refletiam o verde de seus olhos na janela entreaberta. Sua colega de quarto já havia despertado e se arrumava ansiosa diante do espelho. É hoje, Edit! A grande festa! Ela esfregou os olhos com as mãos e tentou focalizar a amiga, mas lembrou-se que estava sem óculos e sua miopia não lhe permitiria tal feito. Anda, Edit! Cadê a sua máscara? Mas de que raios está falando, Bete? Como assim do que estou falando? Hoje é o dia do baile, esqueceu?! Mas que vá pro raio que o parta este baile! Virou-se para o lado cobrindo-se por completo. Ah, não Edit. Hoje eu não vou deixar você sozinha neste quarto, nem que você queira! Anda, levanta! Tenho mais de uma máscara aqui para você escolher. Eu não quero ir a parte alguma, Bete, pelo amor de deus, entenda que… Entendo que você está magoada porque o Antonio partiu, entendo que sofres uma dor de dilacerar o estômago e é justamente por isso que sim, você vai ao baile, Edit!
Bete era virginiana e completamente diferente de Edit, mas mesmo ouvindo as reclamações da amiga não desanimava e sempre lhe convencia de fazer o que queria. Edit não saia do quarto a dois dias, nem para ligar para a família que vivia no interior do Rio de Janeiro. Estava completamente desanimada desde que seu amor partira. Moravam na mesma cidade, mas ela sabia que nunca mais o veria. Mesmo se cruzasse com ele na rua, tudo seria tão diferente que era como se não o visse. Na verdade, foi esse medo devastador que a fez ficar no quarto por dois dias, só saindo para ir a cozinha comunitária da pensão na Tijuca.
Você não ligou para o trabalho, Edit? Não acredito! Ela fez que não com a cabeça, pegou “O imaginário” de Sartre que acabara de ser lançado e começou a ler. Bete aumentou o som do rádio que tocava entusiasmado “Aurora” e tomou o livro de Edit. Já falei que hoje você não fica aqui sozinha! Mas eu não quero sair daqui, Bete! Que raios! “Se você fosse sincera, Ô ô ô ô Aurora,Veja só que bom que era, Ô ô ô ô Aurora”. Você vai sair nem que seja carregada! Abaixa esse rádio, por favor. Ora vamos, Edit! É dia de festa, é carnaval! Já falei com o Abelardo, hoje você vai cantar! Está tudo combinado, vamos, senão irá se atrasar. O que? Você só pode ter enlouquecido de vez, Bete… Eu não vou cantar, de jeito nenhum! “Madame antes do nome, Você teria agora, Ô ô ô ô Aurora”. Mas é claro que vai! É só disso que você precisa, cantar! Mas sabes que não canto há uns dois anos, sem ensaio nem nada. É claro que não vou cantar, Bete! Pára de ser reclamona e trate de se arrumar que já estamos atrasadas!
Depois de muito discutir, Bete, mais uma vez, conseguiu com que a amiga se arrumasse e, sob muitos protestos, chegaram ao bairro da Gloria, onde o baile já acontecia ao ar livre. Edit ainda estava meio zonza, mesmo por trás da sua máscara cor de ouro, ainda sentia-se acanhada e morrendo de medo da multidão enfurecida. Vai que um daqueles rostos cobertos era o do seu amor? Como poderia ela estar segura diante de tantos olhos desconhecidos? Será que sua amiga não entendia? Bete, preciso ir embora agora. Pára de besteira, Edit! Olha, lá está o Abelardo! Vamos logo combinar a cantoria. Bete, por favor… Anda, Edit! Hoje é o seu grande dia! Você vai voltar aos palcos! Ora, mas que grande tolice, Bete, eu só concordei de vir até aqui porque você não me daria paz nunca, mas daí a cantar… Oras, que tolice! Vamos, ele acenou para nós! Oooi Abelardo!!!! Vamos, vamos, ele está nos esperando! Bete a puxou pelo braço e foi em direção ao rapaz que acenava entusiasmado. Ele tinha os olhos claros como o céu, um fino bigode que denunciava seus 27 anos e um sorriso que já havia deixado muitas moças sem ar. Abelardo as cumprimentou de forma muito cortês e simpática. Beijou a mão direita de Edit e lançou-lhe um olhar que a fez ficar sem graça. Você, minha bela diva, cantará sucessos do Trio de Ouro junto com uma banda de amigos meus que já está para chegar. As bochechas de Edit ficaram vermelhas imediatamente e, disfarçando um sorriso, perguntou-lhe por que a chamava de estrela se nunca havia a visto cantar. Aí é que você se engana, Edit da Silveira. Já ouvi a senhorita cantar e muito. Ela pasmou mais ainda quando ele pronunciou seu nome artístico. Já a vi cantar em muitos lugares e, quando não mais ouvir falar da senhorita, fiquei bastante sentido. Já alegrou muitas noites minhas, mesmo sem saber. Edit não conseguia mais disfarçar o sorriso, e apenas conseguiu dizer: obrigada. Bem, mas vamos ao que interessa, vou lhe passar o repertório, vocês devem começar a apresentação em uma hora.
O resto da banda chegou e, logo, eles foram para trás da coxia improvisada e começaram a ensaiar. Quando Edit começara a cantar todos ficaram pasmos. Abelardo já havia dito a seus amigos que ela esplêndida, mas eles nunca imaginaram que ela cantasse tão bem. Edit fechava os olhos e balançava seus bracinhos magrelos com a suavidade de um cisne. Os olhos de Abelardo vibravam ao ver sua diva cantar. Sim, desde que a vira pela primeira vez ouviu a sinfonia dos deuses a lhe falar “é ela!”. Ele mal podia acreditar que estava ali, naquele pequeno espaço, ouvindo a mulher que acreditava ser da sua vida, cantar. Conheceram-se na Gávea, numa noite de muita bebedeira e conversas profundas. Desde então, Bete ficou muito sua amiga e os três sempre se encontravam. Abelardo, mesmo sentindo um amor infinito por Edit, era muito tímido e respeitador, portanto, não a cortejava, para que ela se sentisse a vontade. Além disso, conheceu Augusto e jamais passaria por cima dos sentimentos de sua estrela. Mas naquele momento tudo era diferente, era como se ela lhe tocasse de leve os ombros com sua voz fabulosa. Sentia o ar de seu respiro como algo novo. Não era a mesma Edit das mesas de bar. Parecia estar renascendo ao passo em que ia cantando. Abelardo via luz saindo dos movimentos de suas mãos e brilho nas ondas sonoras de sua humilde cantoria.
A hora se passou rapidamente e quando Edit deu por si, já estava em cima do pequeno palco, sendo aplaudida por dezenas de pessoas. Abriram a apresentação com “Praça Onze”. Um sucesso total. Além de Bete que gritava entusiasmada da primeira fileira, o baile havia praticamente parado para ouvir Edit cantar. Restavam poucos dançando e um número ainda menor de pessoas permanecia sentado. Os olhos de Edit brilhavam e ela mal podia lembrar-se de seu sofrimento, ou da existência de um Augusto sequer. No meio do show tirou sua máscara e ao fim foi aplaudida de forma histérica pela platéia que, a partir daquele momento a amava.
Um grupo de marchinhas havia substituído a banda de Edit, as pessoas continuavam animadas, mas nada se comparava a apresentação que teve. Fora cumprimentada pela maior parte da festa e, finalmente, pôde dançar a vontade com Bete, Abelardo e seus mais novos colegas de banda. Depois de três doses de conhaque e algumas cervejas, Edit já se sentia bastante a vontade e a dor que carregava a três horas, parecia estar extinta por completo. Abelardo também havia bebido e, depois de muito tempo, sentiu uma segurança fora do comum. Foi o que o impulsionara a puxar Edit pelo seu braço esquerdo e dar-lhe um beijo apaixonado. A música havia acabado de parar e as pessoas aplaudiam no momento exato em que a beijara. Era como se tudo aquilo fosse pela sua coragem. Ele realizava um sonho, um sonho acordado e de olhos fechados. Edit não resistiu e entregou-se totalmente àquele momento. O barulho das palmas lhe fazia sentir ainda no palco e, por isso, seus pêlos do corpo se arrepiaram. Bete assistia a tudo e vibrava pela reação da amiga ao amor não retribuído.
O baile continuava cada vez mais animado e Abelardo e Edit permaneciam sem máscaras. Aos olhares estranhos parecia um casal de anos muito apaixonado. Olhavam-se nos olhos, andava de mãos dadas e davam os beijos mais ardentes quando pensavam que não havia ninguém lhes prestando atenção. O turbilhão de pessoas coloridas fazia-lhes mover-se de um lado para o outro. Amavam-se mais ainda à medida que eram empurrados e arrastados pela multidão. Jogavam serpentinas, lança-perfume e, por vezes, as cervejas que lhes caía do copo nos transeuntes. Edit sentia sua cabeça e coração em idas e vindas, como se estivesse num mar de seres humanos. Sorria e sentia-se muito feliz.
Já passava da uma da manhã e Abelardo foi trôpego anunciar o fim do baile no microfone. Edit que estava rente ao palco, já não tinha quase nenhuma consciência da realidade. Seu corpo era uma pluma a flutuar por entre as pessoas que a arrastavam para trás. Acabou por vomitar em seu próprio vestido. Bete, que era muito mais resistente à bebida, tratou de levar-lhe para casa.
Edit e Abelardo nunca mais se viram. E aquele romance de um baile, acabou por ser o prelúdio da música “La Foule” da eterna estrela Edith Piaf.