Espectro de Ilusões

O que impulsiona

Outubro 16, 2009 · 1 Comentário

Numa tarde fria e cinzenta, ela resolve fechar a janela para bloquear a ventania. Mania essa de olhar demais através dela. De repente, ele chega. Grisalho e magro, vestia um moletom branco e uma calça jeans, andava pela rua com alguns sacos de pão. Ela não resiste e o observa. Ele pára diante do cercado de lixo aberto, em frente ao prédio de alto luxo. Ela olha para o outro lado da rua, as janelas já estão fechadas, mas ela ainda o vê. Um carro bloqueia sua visão, ele parecia revirar lixo, mas ela se dá conta de que ele não está. Ele está inquieto, as embalagens dos pães são da padaria mais cara do bairro. De repente, estão no lixo.

O que ele estaria fazendo ali? Ela não consegue enxergar, mas tenta ver. Ele coloca um pão no lixo e mantém os outros dois sacos na mão. Ela percebe que ele não joga o pão no lixo, mas o coloca lá. Ela fica tão confusa que abre a janela. Ele dá mais uns três passos, bastante agitado e põe mais um pão no pé de uma árvore. O saco vazio voa e ele tenta pegá-lo, mas o saco simplesmente se perde pelo asfalto. Ela arregala os olhos, percebe que aquilo é algo muito maior que sua razão. Ela tenta formular conceitos, lembra-se da estória de Maria e João, quando eles traçavam seus caminhos com pedaços de pão para não se perderem. Lembra também do morador de rua que vê sempre, em frente àquele mesmo lixo, vestido com um saco preto procurando alguma possibilidade de alimentar-se naquele reservatório de desperdícios. Tudo isso a deixa muito mais confusa que o homem que coloca os pães ali. Na sua condição de experimentadora, mesmo que na posição de observadora, ela percebe que precisa abrir mais ainda a sua janela, mesmo assim, a passividade a incomoda.

Ele continua alterado e profere palavras, olha para o pão que deixou no pé da árvore, tem mais um saco na mão. O vento gelado atinge o rosto dela que agora repara que ele tem uma pilha de folhetos na mão. Ele balança os folhetos com a mão direita e deixa mais um pão, do saco que lhe resta, no chão, há poucos metros do cantinho da árvore, onde repousa o outro pão. Ela vê por trás dos carros estacionados na calçada que ele fala com alguém e entrega a pilha de panfletos. O alguém era uma criança de uns sete anos. Logo em seguida, ele encontra com a suposta mãe da garotinha que o diz para ir embora. Ela abre mais ainda a janela e tenta colocar a cabeça para fora, começa a ficar muito angustiada e sente uma vontade enorme de sair de casa e ir até ele. Quase foi movida por esse impulso, mas, novamente, pensa. E pensa que talvez ela não devesse intervir. O que a faz achar que ele precisa da sua ajuda? Percebeu que quem estava precisando de ajuda era ela diante de tudo aquilo e que não lhe cabia afastá-lo de sua vontade naquele momento. Mesmo sabendo disso, seus sentimentos gritam e ela quer muito falar com ele.

Ele se afasta e a angustia dela vai crescendo até o perder de vista. A criança agora surge com a mãe, elas parecem conversar algo. A mãe com um semblante tenso gesticula com a garota. Elas passam em frente ao lixo, os folhetos são jogados lá. O homem de moletom desapareceu do seu campo de visão, ela continua vendo o pão embaixo da árvore.

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Agora o Espectro de Ilusões é aqui!

Outubro 5, 2009 · Deixe um comentário

Olá antigos e novos leitores queridos!

Finalmente migrei o antigo http://espectrodeilusoes.zip.net para cá e agora só publicarei novos textos neste blog!

Os textos antigos estão com as datas de publicação no outro blog!

Obrigada a todos por dividirem essas sensações e pensamentos comigo!

Abs,

Rafaela

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Os verdadeiros loucos

Outubro 4, 2009 · 3 Comentários

Há um tabu presente na nossa realidade que tem me chamado cada vez mais a atenção. Uma coisa simples e que pode, a primeira vista soar clichê, mas não deixa de ser algo difícil de ser superado: lidar com as diferenças. As segmentações estão por toda parte. A cada dia que passa, ficamos sabendo de novos movimentos de pequenos grupos que são ou foram excluídos ao longo da nossa história. A questão fica ainda mais complexa, quando percebemos que muitos desses grupos que brigam por seus direitos, não se contentam a militância político-social e resolvem rebater a exclusão com a mesma arma. É triste perceber-se inserido nesse contexto, pregamos tanta coisa, lutamos por mudanças, mas quem e o que estamos sendo para as pessoas ao nosso redor? Vamos nos defender jogando de volta outra pedra?

Mas o principal aqui é isso; as diferenças. Por que é tão difícil aceitar algo ou alguém que não compartilha do nosso jeito de ser e pensar? Por que preferimos excluir esses grupos e nos tornar cada vez mais pobres de espíritos, em vez de incluí-los para um enriquecimento mútuo? Primeira coisa, alguém detém alguma verdade? Existe uma verdade? Por que você se acha no direito de taxar fulano disso ou daquilo? Já se olhou no espelho? Que não seja apenas para retocar a maquiagem ou fazer a barba. Minha pergunta é: Você se conhece? Acho que essas tentativas de negação e exclusão que presenciamos no nosso meio social diariamente são frutos de uma insegurança pessoal imensa. Se você se acha tão detentor da verdade, por que se sente tão ameaçado com a realidade alheia a ponto de querer exterminá-la?

O ser humano tem muitos traços em comum, principalmente pelo seu convívio em sociedade. Um desses traços é o medo do novo. Muitos de nós não sabemos lidar com as rupturas com velhas estruturas e, cada pessoa tem um tipo de reação. Essa reação muitas vezes é a raiva e o desejo de isolar essas mudanças, para que não nos atinja. Pois bem, faça sua escolha. Seja a mesma pessoa a vida inteira e, quando envelhecer, olhe para trás e perceba que não aprendeu nada. Não falo de essência, o que somos de verdade por dentro não muda, carregamos para sempre. Mas existem muitos caminhos a serem percorridos e o aprendizado está justamente neles.

O nosso sistema econômico e político faz com que acreditemos que a melhor saída é realmente ignorar as diferenças e a buscar, individualmente, dinheiro e poder. Esse é o “sucesso” que eu vejo sendo proferido de várias bocas diariamente. Fulano é “bem sucedido” porque é rico, sicrano é feliz por ter poder e pisar nos outros. Acontece que, esse modelo de vida que criaram para gente é tão falho que percebemos que uma minoria quase que absoluta detém esse “sucesso”. Será que ele realmente existe? Será que esse é mesmo o melhor trajeto para seguir? A melhor essência?

Pois é esse mesmo sistema que nos torna loucos por papel, que segrega nossa sociedade em grupos de descriminados e descriminantes, ou os dois ao mesmo tempo. É esse mesmo sistema que situa um ser humano como “louco” e, portanto, desmerecedor do convívio social. Para tal atitude existe uma série de argumentos vazios e carregados de crueldade. Afinal, o que é o louco no meio de um agrupamento humano? Ele é alguém que temos que ser descrentes, alguém que nos oferece perigo. E por que encarnamos esse perigo, afinal, cadê a nossa segurança de seres absolutos que estão aptos a julgar qualquer atitude diferente da nossa como “loucura”? O louco pode ser perigoso, assim como qualquer pessoa que se aproxime de nós. São pessoas que passam ou vivem em sofrimento psíquico e que, por isso, se tornam no consciente popular uma doença. O esquizofrênico não é a esquizofrenia, o psicótico não é a psicose. Eles são, antes de tudo pessoas. Iguais a mim, iguais a você. Assim, simplesmente, pessoas. Pessoas que têm o direito de discordar de você, que partilham, assim como você, anseios e possibilidades.

O medo do louco e de tudo que é diferente é a forma mais covarde de tentar justificar a exclusão e o confinamento. O que realmente a sociedade teme são as diferenças. Ela teme aquilo que não consegue se enquadrar por inteiro num molde aprisionador e razo de relações humanas batizado de sistema econômico social. Chamamos de louco o sujeito que se expressa como quer dentro de um modelo extremamente castrador, quando, na verdade, os loucos somos nós. Nós topamos nos trancar nesse cercado de mentiras. Nós aceitamos ter que trabalhar oito horas por dia numa empresa que odiamos porque precisamos pagar o dinheiro que – nem existe – gastamos dos nossos cartões de crédito. Nós nos casamos sem nem saber o que é amor, para constituir uma família ilusória, que trairemos de todas as formas possíveis. Nós aceitamos sorrir, quando estamos extremamente irritados com alguma injustiça que nos foi feita, e assim desenvolvemos nossos cânceres e pandemias. Diante de tudo isso, você ainda acha que não está sujeito a ter um surto? E ainda bem que temos o poder de surtar e gritar diante dessa realidade atroz em que vivemos! Senão seremos nós a doença, mortos vivos que deixaram sua vida passar como um filme da “sessão da tarde”. Pois mesmo como todas as nossas esquisitices naturalmente humanas e nossa postura segmentadora estão todos buscando uma mesma coisa: a felicidade de existir, inclusive, no meio social.

** Escrito em agosto de 2009

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Cores

Outubro 4, 2009 · Deixe um comentário

-Parar para escrever é sempre um encontro comigo, não adianta fugir da minha missão, assim me encontro e me reinvento. Estou no pé de uma árvore no meio de um dia cinza, caótico e de sentimentos desordenados. O verde da grama molhada dá cor e paz ao meu espírito. Tenho certeza que sairei daqui renovada.

Alice e seu mundo. Quantas vezes teve vontade de desistir… Quantas lágrimas derramadas em cada linha que escrevia. Os dias cinza não afetavam mais seu humor, mas ela se sentia sufocada por não conseguir ver o céu. O azul é o seu pedaço de verdade, seu pedaço de natureza em meio a uma floresta de concreto e leões famintos por sua essência. Então pensava: pra que desistir? O cinza e o azul têm funções antagônicas, mas são igualmente necessárias. Para Alice e para todo fio de humanidade que possa existir.

Alice não vê a solidão como algo triste, ela não tem medo de si mesma. Sozinha, apenas com a presença verde da vida ela conseguia ver muito mais. -Os problemas mundanos ficam muito pequenos quando nos aproximamos de nós mesmos.

Alice escrevia na mesma freqüência em que existia. Sentia-se melhor a cada linha, mesmo sendo elas frutos de uma desordem mental completa.

Alice tem o pulmão e o estômago frágeis e sua última pneumonia lhe deixou temporariamente surda. Ela sentia a atmosfera ao seu redor amarelada, opaca. Via lábios que se mexiam, mas não emitiam nenhum tipo de som. Sentia muitas pessoas ao seu redor opacas, tornando-se palavras vazias, corpos sem vida, seres sem alma. Tinha medo desses pensamentos, pois insistia em acreditar que todos têm alma, alguns apenas esquecem ou fingem que ela não está ali. A surdez lhe dava mais vontade ainda de se interiorizar e ouvir suas próprias vozes. Ela não estava presa em seu corpo e nem se sentia opaca, mesmo quando o mundo inteiro parecia estar.

Alice procura o vermelho do amor em cada ser que a habita por dentro e por fora. E é essa paixão que a faz acordar todo dia e falar pra si mesma: não posso desistir. Não vou desistir de mim.

** Escrito em julho de 2009

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Uma recente experiência

Outubro 4, 2009 · Deixe um comentário

Minhas leituras e pensamentos ultimamente estavam voltados à compreensão das várias nuances do meu espírito. Eu me sentia confusa por estar vindo tudo de vez de uma forma que eu nunca havia sentido. Antes eu experimentava o mundo espiritual como uma força ambígua, porém, sempre me trouxe, acima de tudo, leveza. Nos últimos dias eu estava vivendo o peso. Pedi para que surgisse um contato maior, com pessoas que pudessem me transmitir a força de seus ancestrais e da natureza. Pedi que eu voltasse a tomar ayahuasca, mas pedi, acima de tudo, que fluísse, que eu não precisasse procurar, pedi para que tudo isso viesse até mim. E veio.

Domingo durante o dia fui fazer fotos e vídeo com um amigo para um trabalho lindo que está sendo iniciado com índios do Acre e que será ampliado para índios de todo o Brasil. O projeto da Associação Casa do Estudante Indígena envolve educação e formação para os índios que possam contribuir com seus conhecimentos para o bom funcionamento de suas aldeias. Tive a felicidade de conhecer três grandes lideranças indígenas; Shanerú representando o povo Yawanawá (que significa “queixada”); Harú dos Kontanawá (“povo das estrelas”) e Leopardo da etnia Kaxinawa (“morcego”).

Quando eu e meu amigo chegamos ao local, fazia um dia lindo de sol. Os índios estavam embaixo de uma arvore fazendo rituais de pintura para se apresentarem algumas horas depois na Aldeia de Carapicuíba. Fiquei fascinada desde o primeiro contato e, mesmo na correria, pude sentir a vibração de seus cânticos e como aquilo reverberou bem nas pessoas que os assistiram. Acabado o trabalho, fomos à casa de uma das pessoas que estavam lá para fazer o ritual.

Chegamos na casa que era maravilhosa, me senti como se estivesse no meio da floresta, o céu estava muito estrelado, a lua estava minguando e eu conseguia sentir o cheiro forte da vegetação. Respirei melhor. Enquanto os índios não chegavam, ficamos em volta de uma fogueira os esperando. Havia umas quinze pessoas lá e todos alimentavam a fogueira, catando lenha nas proximidades dela. Eu estava muito ansiosa, havia quatro anos que eu não tomava o chá e minha última experiência havia sido muito forte. Na verdade, estava com medo de ver coisas que me fizessem passar mal e que me fugissem o controle. Não o controle racional, mas o controle do meu próprio espírito diante de forças estranhas que se fizeram presentes da última vez. O medo e a ansiedade repercutiram no meu corpo e eu não parava de ter vontade de urinar. Fui ao banheiro cerca de dez vezes seguidas, não queria sentir vontade de fazer xixi na hora das mirações, pois lembro que foi assim que passei muito mal. Há quatro anos, no ritual de ayahuasca, eu já estava fora do plano prático, quando senti muita vontade de urinar, me levantei da roda e fui ao banheiro sozinha. Eu mal conseguia sentir meu corpo e foi muito difícil conseguir tirar a roupa e sentar na privada. Quando, finalmente, consegui fazer xixi eu olhei para a parede de azulejos e vi uma série de esfinges e Cleópatras em série, seguido da visão de milhares de gueixas. Isso tudo envolto em teias e com besouros multicoloridos. Eu fiquei muito impressionada e comecei a ter medo. Levantei, me vesti com dificuldade e fui até a pia lavar as mãos. Quando me olhei no espelho foi um dos piores momentos. Me vi derretendo na minha frente e aquilo desencadeou uma série de outras visões muito dolorosas para o meu espírito.

Apesar da minha ansiedade, eu estava muito feliz em estar ali, aquelas pessoas todas tinham um brilho próprio que pude sentir mesmo naquelas que eu não me cheguei a conversar. Os índios demoraram quase quatro horas para chegar e esse foi o tempo ideal para eu me sentir segura e esquecer o medo que, na verdade, eu não sentia. Meu espírito estava muito pronto para aquilo e, quando me dei conta disso, minha força se restabeleceu e eu pude me sentir plena novamente.

Sentada na grama, eu admirava aquelas figuras tão simbólicas para mim. Seus olhos carregavam a sabedoria e a dor de povos marcados por massacres e perdas, mas, muito mais que isso, eles me passavam uma força e conhecimento de seres humanos que sabiam que eram parte da natureza e usufruíam disso da forma mais verdadeira possível. Eu olhava maravilhada para os seus cocás e colares de sementes, esses elementos naturais que eles traziam adornando seus corpos revelavam sua ligação inevitável com a floresta e o respeito que mantinham por ela.

Eu esperava curiosa pelo inicio do “trabalho”. O “Ni”, como eles chamam o chá, foi servido um a um. Primeiro, uma das pessoas do grupo colocava o chá em um pequeno copo, em seguida, Leo pegava o copo, olhava fixamente para ele e emitia sons parecidos com sopros. Em seguida, ele passava o copo para Shanerú que falava algumas palavras em sua língua e fazia o mesmo som, logo depois, ele passou o copo para Harú que “soprava” no mesmo algumas vezes e finalmente o passava para a pessoa que ia tomar. O ritual foi repetido cerca de vinte vezes que era, mais ou menos, o número de pessoas que estavam lá. Os índios repetiram isso da primeira a ultima pessoa com a mesma concentração. Depois que todos tomaram, eles fizeram o próprio ritual e tomaram o “vinho sagrado”.

Todos nós sentamos novamente em forma de círculo, em volta da fogueira. Era uma noite fria e muitos estavam envoltos em cobertores e mantas. A gente permaneceu em silêncio para concentrar as energias. Meu amigo dizia já sentir alguma coisa, eu também já sentia, mas nada parecido com as minhas primeiras sensações no trabalho de quatro anos atrás. Estava muito brando e eu não “via” imagens extra físicas, apenas a energia que nos circundava. Era como se eu pudesse enxergar o ar. Tudo surgia com pontos brilhantes que realçavam a textura das imagens. As portas estavam abertas, as forças já se faziam presentes. Falei ao meu amigo que nós deveríamos olhar para o fogo e nos concentrar porque aquele era o momento que conseguiríamos ver a real velocidade das coisas. O silencio já havia sido interrompido pelos cânticos dos índios, que ganhavam mais força com o passar do tempo. Eles cantavam em sua língua, mas eu conseguia sentir do que se tratava. Nesse intervalo, alguns de nós havíamos deitado, outros permaneciam sentados, parecia que estávamos sem energia física, prontos para ver e sentir todas as forças que estavam vindo. Foi quando Shanerú se levantou e pediu para que nos levantássemos também. Foi um momento abslotumanente mágico, a sintonia em que estávamos era inacreditável. Seguimos as instruções dele e demos as mãos e formamos um circulo em volta da fogueira. Batíamos os dois pés na terra e dançávamos o Marirí. Aquilo me trouxe uma felicidade imensa, as pessoas sorriam leves. Shanerú cantava e nós os seguíamos em seus cânticos poderosos. Depois da dança, tornamos a nos sentar, alguns permaneceram em pé. Harú nos perguntou se a gente queria tomar mais um pouco do chá, a maioria tomou novamente e foram feitos os mesmo rituais da primeira vez. Eu também repeti, e me sentei novamente. Sentia as partículas de infinito dentro de mim e me concentrei para me entregar. Os cânticos me tocavam cada vez mais fortes, eu observava os três pajés que mantinham uma sintonia com tudo e todos fascinante. Cada palavra que cantavam reverberava no mato e em mim de uma forma inexplicável, eu podia sentir tudo através deles.

Comecei a sentir o meu corpo amolecer, tive que fazer certo esforço para manter a cabeça firme. Sentei com as pernas dobradas pra frente e as mãos por baixo dos joelhos. A luz da fogueira estava mais baixa e eu conseguia ver os rostos que estavam mais próximos dela, inclusive os dos pajés, que concentravam partículas luminosas. Leo começara a ler algumas canções com a ajuda de uma lanterna. Eu olhava para seu rosto pouco iluminado e parecia ver seus ancestrais dentro dele, como se o auxiliassem a cantar. Olhei para a fogueira e a terra embaixo dela parecia respirar, contraindo e expandindo. Meu corpo estava cada vez mais relaxado e eu senti uma necessidade imensa de deitar, porém eu continuava sentada inerte, até que consegui me mover e deitei na grama com a cabeça em cima do meu braço. Eu podia sentir todas as presenças não físicas e aquilo me dava uma mistura de maravilhamento e sofrimento ao mesmo tempo. Não dava para racionalizar nada, era tudo ao mesmo tempo, minha mente estava vazia, eu era apenas espírito. Senti um peso que, ao mesmo tempo, me trazia leveza, mas era difícil de superar. Harú começou a cantar de uma forma inacreditável, a voz que saia do seu corpo não era apenas dele, ela emitia sons da natureza e reverberava de uma forma que acredito não ser humana. Olhei para o meu amigo que estava deitado perto de mim, resolvi me sentar. Ele sentou em seguida e ficamos nos olhando, eu disse que precisava fazer xixi, mas que não queria ir naquele momento, ele disse que iria comigo. Esperei mais um pouco e me senti segura para encarar a minha imagem novamente. Enquanto isso, Harú havia perguntado novamente se alguém queria tomar mais ni, pois essa seria a última sessão. Eu resolvi não repetir, já me sentia dentro de tudo o suficiente. O meu amigo tomou mais uma vez e, algum tempo depois, foi comigo até a casa e eu fui ao banheiro. Ao entrar olhei de relance para o espelho. Já estava fácil me movimentar e consegui fazer tudo normalmente. Fui lavar as mãos e me olhei no espelho, minha imagem era quase a mesma, mas eu enxerguei os meus olhos maiores e me aproximei. Eu conseguia perceber cada movimento mínimo da minha face, meus olhos estavam maiores e eu sentia como se pudesse ver as coisas de fato. Enfrentar esse medo me deixou ainda mais forte e saí do banheiro me sentindo muito bem. Meu amigo me esperava do lado de fora da casa fumando um cigarro. Nós ficamos na varanda fumando e observando aranhas que andavam por suas teias imensas. Elas eram brilhantes e a gente conseguia entender o que elas comunicavam. Olhamos para a vegetação exuberante da Mata Atlântica e elas pareciam estar na mesma freqüência que as aranhas e nós mesmos. Eu gritei: “Deleuze, viva Deleuze!”, me referindo a rizoma e a sensação plena, mais uma vez, de que somos uma coisa só. Ele me contou que quando olhou para mim no “terreiro” viu a metade do meu rosto iluminada e eu tinha olhos de índia. Eu ouvi o cântico dos índios e dessa vez, eles tocavam violão, disse a ele que precisávamos voltar e assim o fizemos.

A luz parecia ter aumentado no lugar, Shanerú cantava músicas muito bonitas e eu senti muita alegria. Levantei, fumei, dancei, a sensação era de realização, intensidade e suavidade ao mesmo tempo. O yawanawá perguntou se a força já tinha baixado, se as pessoas se sentiam bem. Eu já não estava mais tão envolvida pelos espíritos da natureza ali presentes, mas as pessoas que tomaram pela terceira vez ainda sentiam muito forte. Shanerú continuou a cantar canções belíssimas de seu povo e algumas que ele mesmo fez. Verdadeiros artistas, feiticeiros, guerreiros aqueles índios. Eles, a natureza e nós mesmos conseguimos transformar aquele lugar em pura luz e amor. Eu ficava admirada com a beleza de tudo aquilo e só conseguia sorrir. O sorriso mais verdadeiro, aquele que vem de dentro, uma harmonia intensa entre você e a essência de tudo. E assim permaneço.

** Escrito em abril de 2009

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Das coisas que realmente importam

Outubro 4, 2009 · Deixe um comentário

E lá estava ela no fim do corredor encantadoramente perdida. Na verdade, o modo em que se via perdida não era nada além de uma preguiça de sua alma de se tornar plena. Ela se buscava nos livros, nas telas de cinema e nos quadros que pintava escondido, mas não se sentia reflexo de nada. Vontade de sacudir essa maluca pelos ombros e falar para ela que não falta nada, a não ser um olhar dela para ela mesma.

Essa incessante busca que as pessoas tendem a fazer de si mesmas nos outros ou em todo pedaço de intensidade que acham por aí não leva a nada, sinto dizer. O negócio está aí mesmo, dentro da gente e de mais ninguém. Sinto muito, mas não adianta ver todos esses filmes desesperadamente na esperança de que Bergman tenha uma resposta para uma dúvida da sua alma. A arte ajuda, as pessoas nos tornam melhores, mas nada adianta se a gente não tiver a nós mesmos.

Quero dar uma volta na orla e sentir a água do mar abençoando os meus pés. Outro dia me perguntaram por que não gosto do mar. Até então eu não tinha me dado conta disso, daí me veio a dúvida se era realmente eu que não gostava dele, ou ele que sempre me quer dizer demais. O universo está todo ali, não tem como negar. Ninguém, nenhum ser vivo por mais insensível que seja passa ileso pelo mar. E é tão bonito ver que, mesmo nos dias de hoje tão frios e cinzentos, as pessoas ainda “perdem” pedaços de seus tempos para observar o fantástico colorido que ganham as ondas ao serem tocadas pelos feixes de luz emanados pelo sol no fim de sua jornada diária. Quero tocar todas essas cores, quero trazê-las para mim, quero guardá-las para sempre dentro de tudo que sou. E consigo. Portanto não acho que eu não goste do mar e nem ela, mesmo quando ela insiste em não dar importância alguma para esse pedaço de vida maior que todos nós.

De repente as coisas tornam-se tão fluidas e você se torna tão pleno de si que dá preguiça da pequinês desse mundo. Dá vontade de abdicar das suas responsabilidades e mergulhar num mundo de fantasia real proporcionado exclusivamente pelo que é intenso e verdadeiro, pelo que eu chamaria de alimento da alma e não de pura obrigação banal, sobrevivência ou rotina vazia. Por impulso ou não, acabo seguindo o meu eu e fazendo exatamente isso.

E os sonhos revelam tudo isso. Tudo isso que tínhamos certeza sentir, temos a maravilhosa oportunidade de assistir durante o descanso dos nossos espíritos. Eu diria a ela que é muito maior que qualquer filme que ela possa assistir. Portanto, assistamos nossos sonhos, prestemos atenção em tudo que somos através disso, no que faça sentido ou não, no que seja palpável ou não, porque as pessoas têm que entender que nem tudo que existe faz sentido e nem tudo que somos está aí para vermos. Nós somos tudo que vibra, tudo que faz pulsar. E o alimento de todo esse universo infinito de nós mesmos são os nossos corações.

** Escrito em jan de 2009

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A sinestesia do amor

Outubro 4, 2009 · Deixe um comentário

O cheiro de esmalte a entorpecia. O loiro dos cabelos dela brilhava naquele quarto de janelas fechadas. Suas bochechas ficavam mais rosadas com o calor daquela tarde de verão. Ela acompanhava sua leveza ao limpar os excessos de vermelho nas bordas das unhas. Acendeu um cigarro e continuou admirando a beleza aparentemente inocente de Maria. Aqueles olhos apertadinhos, tão angelicais, passavam uma força e segurança que envolvia Lara por inteiro. Ela fechava os olhos, desenhava Maria em sua frente e quando os abria ela estava exatamente do jeito que imaginou. Abre as janelas, quero fumar. Lara pensou que ela borraria suas unhas, mas não atreveu-se a falar nada, Maria sempre sabia o que fazer na hora certa e se não fosse a hora certa sabia como fazer para que fosse. Ela levantou-se da cama de lençóis vermelhos e almofadas verdes e abriu a janela para que sua bela Maria pudesse fumar. Seus movimentos eram tão leves, puxava o cigarro do maço sem nenhuma pressa de fumá-lo, sabia apreciar cada instante, do mais fútil ao mais intenso. Lara não acreditava que tal perfeição pudesse existir. E, de fato, não poderia.

Maria deu o último trago no cigarro e apagou-o no cinzeiro. Aproximou-se lentamente de Lara que estava encostada em uma das almofadas verdes, completando a contradição de cores tão bela que era a junção da almofada com os seus cabelos rubros naturais. Maria ficou por cima dela, olhando fixamente em seus olhos verdes. Lara ficava tonta só de sentir seu cheiro de colônia fresca que, na verdade, lhe era natural. Maria esfregava devagar seu sexo contra o de Lara, sentia-o umedecer abundantemente. Ela encostou os dedos por cima da calcinha dela, apertou devagar. Lara fechou os olhos, sorriu. “Ela vai acabar borrando as unhas”, pensou. Maria estava toda arrepiada, ficava excitada só de ver a devoção de Lara por qualquer suspiro seu. Sabia o quanto era bonita. Sabia o quanto era conhecedora de quase tudo. Sabia que era poderosa. Mas não se fazia superior. Sempre soube que faltava algo em si que só poderia achar nas outras pessoas, assim como todos nós. Maria mordiscava a orelha de Lara devagar, na medida em que acariciava seus seios por dentro do sutiã. Lara passava as unhas pelas costas de Maria que gemia baixinho em seu ouvido. Ela já estava explodindo de tesão, apertou Maria contra si e subiu nela. Arrancou sua calcinha e mergulhou no meio de suas pernas. Chupava Maria com uma devoção de poucos, fazia-lhe virar os olhos e esticar os pezinhos de prazer. Gozou poucos minutos depois, de forma tão perfeita, que só cabia a ela. Mas seu prazer não era egoísta, precisava que Lara gozasse imediatamente depois e assim o fez vezes seguidas.

Horas depois e exaustas, as duas fumavam um cigarro juntas. Uma ao lado da outra na cama, olhavam para a mesma direção que naquele momento não era física. Concentravam-se cada uma em seu plano, olhando para o mesmo teto branco. Lara serviu-se de uma taça de vinho, estava mergulhada em seus pensamentos. Não pensava em Maria, mas em si mesma. Sentia-se tão mulher, se sentia tão amor e, ao mesmo tempo, tão vazia de si mesma. Resolveu olhar para o lado e, ao contrário do que imaginava, deparou-se com Maria observando-a. Nunca tinha sentido os olhos de Maria tão vivos ao olhá-la. Soube naquele instante que ela a amava mais do que poderia suportar. Mas suportaria. Sentiu vontade de vomitar. Seu estômago fraco ficou afetado com aquela única taça de vinho. Foi ao banheiro. Maria permaneceu na cama. Soube exatamente o que Lara não precisava falar. Sentiu uma lágrima cair em seu rosto. De que valia a sua beleza, se não era amada plenamente? Não queria nada pela metade. Não sentia nada pela metade. Foi até o banheiro. Lara escovava os dentes em frente ao espelho, com olhar fixo em si mesma. Não consigo mais. Ela arregalou os olhos e se engasgou com a pasta. Cuspiu, lavou a boca e olhou para Maria, que não conseguia mais segurar as lágrimas. Me sinto uma fraca chorando assim na sua frente. Lara atirou-se em seus pés e começou a beijá-los. Pára, não quero que chore por algo tolo. Não quero que me venere, quero que me ame! Lara não pôde suportar ouvir tanta dor vindo de seu grande amor, sentiu seu peito apertado. Eu sou uma idiota, não ligue pra isso, é existencialismo demais. Não é, você não tem culpa do que sente. Lara levantou-se, colocou as pontas dos seus dedos trêmulos no rosto de Maria para sentir as suas lágrimas. Você é só o que sinto e esse é o problema. Maria afastou-se de Lara. Não suporto mais, vamos parar por aqui. Eu não consigo viver sem você. Nem eu, mas precisamos aprender. Lara beijou Maria com toda a sua vicissitude, de um jeito que nunca sonhara beijar ninguém. Caíram no chão e amaram-se loucamente. Em meio à gozos e lágrimas. Sabiam que não podiam se separar. Sabiam que precisavam uma da outra o tempo inteiro. Mesmo sem saber muito bem o que era ser individuo. Não precisavam. Isso era racionalizar demais. E, afinal de contas, para que racionalizar o amor? Adormeceram no tapete, nuas e entrelaçadas. Maria continuava linda, mesmo com o esmalte borrado.

** Escrito em dez de 2008

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Angústia

Outubro 4, 2009 · Deixe um comentário

Trêmula, estou trêmula. Quinze cigarros em duas horas não resolveram. Ansiedade extrema de mundo. Argh. Pontadas no estômago. Dor cristalizada. Ugh. Travo na minha quase realidade. É díficl lidar com o ócio, seguido de sonhos ruins e materializados na presença de uma barata. É inadmissível a presença de uma barata dentro da sua casa, certo? Eu acho. Ainda mais quando se pensa um monte de besteiras antes, ela vem pra mostrar que está tudo caótico, você não tem mais controle do que habita a sua própria casa. A barata é nojenta, vil, uma verdadeira filha da puta! Ela desestabiliza qualquer um…

Mas o grande problema não é a barata. O grande problema está sendo tão mundano quanto a porra da barata, mas a questão central não está na dita cuja. Tudo desaba. Pode parecer drama, mas tem certos momentos da sua vida que tudo e todos ao seu redor sofrem algum tipo de “rasteira da vida” deles e isso reflete diretamente em você. Pois é. Drama eu diria que não é, nem mesmo a aparição da barata. Daí você fica toda inchada, cheia de líquido retido no corpo porque você está ANSIOSA demais e a sua menstruação é brigada com a ânsia, que aqui dá no mesmo que ansiedade. E aí? Sonhos enigmáticos acompanham sua sina de mal conseguir dormir pensando no que pode ser, no que foi e no que não é. Como sua cabeça está completamente afetada por hormônios presos, o que você faz? Chora. Chora que nem uma madalena enfurecida, acha que é o fim do mundo e se encolhe pra vida. Mas dura pouco. Dura até você fumar mais uns cinco cigarros e ler alguma coisa. Seus amigos lhe consolam, sua dor de estomago continua e a imagem da barata está nítida na sua frente, mesmo depois de cerca de 12 horas passadas do episódio. Argh.

Me sinto forte demais pra mim mesma e frágil demais para o mundo. E divido a culpa com ele. Culpa. Não há culpa na verdade, acredito nos momentos, posso? Ai, nem sempre. Nem sempre mesmo. Ou você vai de acordo com o tempo do mundo ou você fica para trás (dentro dele). E pra que eu preciso do mundo para transcender? A tal da necessidade empírica. Ah, então eu estou tendo que ser conivente com um monte de merda, desgraça, miséria, injustiça, massacre, violência, assassinatos da alma em nome de “experiência”? Mas essa porra está parecendo currículo! Assim toda a minha teoria contra ídolos dogmáticos religiosos ao longo da história vai por água abaixo. Então no mundo espiritual somos os desempregados e “deus” o patrão? Argh, devo estar contaminada de visão capitalista. Devem ser os hormônios.

Aquela coisa de levantar, né. Da queda para levantar, ter isso dentro de si. Auto ajuda sem precisar de livros do Paulo Coelho, excelente. Quem sabe pintar o dia? Ou sair para ver o mundo? O coração disparado e você sem rumo. Daqui a pouco a luz volta, volta. E a calmaria se estenderá. O sol vai voltar a dar o tom. As cores vão ficar vivas de novo. Ai, Bergman, você me contamina com o vermelho vivo não de paixão, mas de dor. Vermelho. É forte, é vida, é morte, é prazer, é dor. Mais um cigarro para finalizar. A tremedeira passou. As lágrimas se foram. É hora de renascer. Vermelho.

** Escrito em set de 2008 numa evidente TPM

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Inodoro

Outubro 4, 2009 · Deixe um comentário

O que aflige? O medo de não ser verdade? Vou rir de você quando diz que não acredita. Mariana está tão certa de si. Mais uma vez serei narradora, a metalinguagem sempre me atinge. Ela ouve uma música que a toca como nenhuma outra coisa consegue atingi-la. Incomoda o fato de nem todo mundo conseguir acompanhar sua genialidade. O que é ser gênio? Você se torna repetitiva nesse seu questionamento eterno de tudo, Mariana.

Olha pela janela, o que te aflige? Na verdade hoje não me sinto muito eu. Dá um gole, dá um trago. Suas vias respiratórias estão todas entupidas, eu não sinto gosto, eu não sinto cheiro, eu não sinto nada. Corre, Mariana, vai perder o ônibus. Eu me sinto como Mariana, eu sou Mariana, eu tento reafirmar tudo que aquilo que, na verdade, nunca ficou afirmado. Eu sou a simples cidadã urbana pegando mais uma condução, mesmo não tendo votado.

Minha opinião como jovem não é nula, é partidária, mas eu não voto. E outra, eu não acredito mais nas minhas fantasias de menina. Mariana não se considera mais uma socialista vivendo num mundo devastadoramente capitalista passível de mudanças. Chegou a um ponto que eu não tenho mais crenças políticas, minha ideologia circula atualmente entre o meu ex-pensamento marxista e o meu ex-sentimento de mundo. Mariana continua pensando, ela continua sentindo. Mesmo sem sentir gosto ou cheiro.

Ela já sentiu o cheiro de morte que ela jamais viu, ela continua sentindo o gosto da fome que ela jamais provou, ela continua sentindo o cheiro de revolução que ela jamais presenciou. Mariana, você é só mais uma. Ela não se sente mais uma, certo? Você é uma entre tantos jovens que tentam expressar sentimentos através de uma pseudo arte e pseudo profissão. Acorda, Mariana, ser escritora é sua profissão? E o que você tem de retorno por esse trabalho um tanto incomum? Profissão de merda, porque uns nascem para serem advogados, ou mesmo empresários e obtêm sucesso.

Que porra é sucesso? Vou comprar um carro, uma casa, um parceiro sexual, vou comprar a minha felicidade. Mariana diz; você é um fodido. O que você tem aí dentro para compensar tudo que vem de fora? Você é um fodido por planejar toda a sua vida, por traçar metas a partir do que é mais ralo no mundo. E se você acha que tem o carinho de alguém pelo que você aparenta sustentar como “bem sucedido” você é mais fodido ainda.

Mariana não tem lado. Ela não veio de família de esquerda ou de direita. Ela não veio de riqueza ou pobreza. Ela não leu na revista de moda o que ela deveria ser. Ela entende… Isso ou aquilo jamais deveria ser. Temo o que será do mundo e de você. Mariana largou a profissão, ela não tem pais nem certezas. Mas, mesmo sem saber por que, você acredita nela.

** Escrito em set de 2008

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The images inside and outside

Outubro 4, 2009 · Deixe um comentário

When we look at an image, we want to capture everything.

We want to keep it safe in our memories, where no one can steal it from us.

Sometimes when you think that everything is okay, you look at yourself in the mirror and see nothing.

So you ask to that unknown strength coming from nowhere what the hell are you doing in your existence. Suddenly, you look in your own eyes again and you feel nothing. That’s when you start to question your own existence.

What is reality, and what is fantasy? Am I really seeing what I think I am? How they can call it real, if reality is so relative? How can exist so many divergent ideas, feeling or thoughts about the same thing? Who’s got the reason? What is the reason? Is there any reason?

What about the images that I’ve keep in my mind? Did they really exist? And what about the memories that we have often that we don’t know if we were dreaming or if we really lived them? Everything seems so far now… I feel like I’m not here. I feel like I’m not writing a word. I’m just dreaming.

On the other hand I’m awake.

The thing is… They are all sleeping and I can see them all. But they… They don’t see me. What about you? Why are you reading this?  Do these words make sense to you? What do you feel now? What is your moment? What images are you capturing from now?

Right now I just feel a headache on the right side of my head. The right side is so mysterious. The scientists say that right brained people are more creative, intuitive and subjective… I’m been subjective in my existence ‘cause I don’t believe in mundane things. I don’t believe in static things, I don’t believe in nothing that they taught us about reality. They don’t know what they say. Actually, it’s a big lie. We are all victims. That’s the reason why we suffer in our whole life trying to catch the images, trying to make sense. We make sense. At the same time we are victims.

They taught us to not create, but we do. All artists are subversive and a lot of non artists are too. We can fight against this big lie. We can see everything that they call unreal. And those are our images. This is reality.

Try to catch your own.

** Escrito em set de 2008

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