Espectro de Ilusões

La foule

janeiro 19, 2010 · 2 Comentários

Despertou com raios de sol iluminando sua face, refletiam o verde de seus olhos na janela entreaberta. Sua colega de quarto já havia despertado e se arrumava ansiosa diante do espelho. É hoje, Edit! A grande festa! Ela esfregou os olhos com as mãos e tentou focalizar a amiga, mas lembrou-se que estava sem óculos e sua miopia não lhe permitiria tal feito. Anda, Edit! Cadê a sua máscara? Mas de que raios está falando, Bete? Como assim do que estou falando? Hoje é o dia do baile, esqueceu?! Mas que vá pro raio que o parta este baile! Virou-se para o lado cobrindo-se por completo. Ah, não Edit. Hoje eu não vou deixar você sozinha neste quarto, nem que você queira! Anda, levanta! Tenho mais de uma máscara aqui para você escolher. Eu não quero ir a parte alguma, Bete, pelo amor de deus, entenda que… Entendo que você está magoada porque o Antonio partiu, entendo que sofres uma dor de dilacerar o estômago e é justamente por isso que sim, você vai ao baile, Edit!

Bete era virginiana e completamente diferente de Edit, mas mesmo ouvindo as reclamações da amiga não desanimava e sempre lhe convencia de fazer o que queria. Edit não saia do quarto a dois dias, nem para ligar para a família que vivia no interior do Rio de Janeiro.  Estava completamente desanimada desde que seu amor partira. Moravam na mesma cidade, mas ela sabia que nunca mais o veria. Mesmo se cruzasse com ele na rua, tudo seria tão diferente que era como se não o visse. Na verdade, foi esse medo devastador que a fez ficar no quarto por dois dias, só saindo para ir a cozinha comunitária da pensão na Tijuca.

Você não ligou para o trabalho, Edit? Não acredito! Ela fez que não com a cabeça, pegou “O imaginário” de Sartre que acabara de ser lançado e começou a ler. Bete aumentou o som do rádio que tocava entusiasmado “Aurora” e tomou o livro de Edit. Já falei que hoje você não fica aqui sozinha! Mas eu não quero sair daqui, Bete! Que raios! “Se você fosse sincera, Ô ô ô ô Aurora,Veja só que bom que era, Ô ô ô ô Aurora”. Você vai sair nem que seja carregada! Abaixa esse rádio, por favor. Ora vamos, Edit! É dia de festa, é carnaval! Já falei com o Abelardo, hoje você vai cantar! Está tudo combinado, vamos, senão irá se atrasar. O que? Você só pode ter enlouquecido de vez, Bete… Eu não vou cantar, de jeito nenhum! “Madame antes do nome, Você teria agora, Ô ô ô ô Aurora”. Mas é claro que vai! É só disso que você precisa, cantar! Mas sabes que não canto há uns dois anos, sem ensaio nem nada. É claro que não vou cantar, Bete! Pára de ser reclamona e trate de se arrumar que já estamos atrasadas!

Depois de muito discutir, Bete, mais uma vez, conseguiu com que a amiga se arrumasse e, sob muitos protestos, chegaram ao bairro da Gloria, onde o baile já acontecia ao ar livre. Edit ainda estava meio zonza, mesmo por trás da sua máscara cor de ouro, ainda sentia-se acanhada e morrendo de medo da multidão enfurecida. Vai que um daqueles rostos cobertos era o do seu amor? Como poderia ela estar segura diante de tantos olhos desconhecidos? Será que sua amiga não entendia? Bete, preciso ir embora agora. Pára de besteira, Edit! Olha, lá está o Abelardo! Vamos logo combinar a cantoria. Bete, por favor… Anda, Edit! Hoje é o seu grande dia! Você vai voltar aos palcos! Ora, mas que grande tolice, Bete, eu só concordei de vir até aqui porque você não me daria paz nunca, mas daí a cantar… Oras, que tolice! Vamos, ele acenou para nós! Oooi Abelardo!!!! Vamos, vamos, ele está nos esperando! Bete a puxou pelo braço e foi em direção ao rapaz que acenava entusiasmado. Ele tinha os olhos claros como o céu, um fino bigode que denunciava seus 27 anos e um sorriso que já havia deixado muitas moças sem ar. Abelardo as cumprimentou de forma muito cortês e simpática. Beijou a mão direita de Edit e lançou-lhe um olhar que a fez ficar sem graça. Você, minha bela diva, cantará sucessos do Trio de Ouro junto com uma banda de amigos meus que já está para chegar. As bochechas de Edit ficaram vermelhas imediatamente e, disfarçando um sorriso, perguntou-lhe por que a chamava de estrela se nunca havia a visto cantar. Aí é que você se engana, Edit da Silveira. Já ouvi a senhorita cantar e muito. Ela pasmou mais ainda quando ele pronunciou seu nome artístico. Já a vi cantar em muitos lugares e, quando não mais ouvir falar da senhorita, fiquei bastante sentido. Já alegrou muitas noites minhas, mesmo sem saber. Edit não conseguia mais disfarçar o sorriso, e apenas conseguiu dizer: obrigada. Bem, mas vamos ao que interessa, vou lhe passar o repertório, vocês devem começar a apresentação em uma hora.

O resto da banda chegou e, logo, eles foram para trás da coxia improvisada e começaram a ensaiar. Quando Edit começara a cantar todos ficaram pasmos. Abelardo já havia dito a seus amigos que ela esplêndida, mas eles nunca imaginaram que ela cantasse tão bem. Edit fechava os olhos e balançava seus bracinhos magrelos com a  suavidade de um cisne. Os olhos de Abelardo vibravam ao ver sua diva cantar. Sim, desde que a vira pela primeira vez ouviu a sinfonia dos deuses a lhe falar “é ela!”. Ele mal podia acreditar que estava ali, naquele pequeno espaço, ouvindo a mulher que acreditava ser da sua vida, cantar. Conheceram-se na Gávea, numa noite de muita bebedeira e conversas profundas. Desde então, Bete ficou muito sua amiga e os três sempre se encontravam. Abelardo, mesmo sentindo um amor infinito por Edit, era muito tímido e respeitador, portanto, não a cortejava, para que ela se sentisse a vontade. Além disso, conheceu Augusto e jamais passaria por cima dos sentimentos de sua estrela. Mas naquele momento tudo era diferente, era como se ela lhe tocasse de leve os ombros com sua voz fabulosa. Sentia o ar de seu respiro como algo novo. Não era a mesma Edit das mesas de bar. Parecia estar renascendo ao passo em que ia cantando. Abelardo via luz saindo dos movimentos de suas mãos e brilho nas ondas sonoras de sua humilde cantoria.

A hora se passou rapidamente e quando Edit deu por si, já estava em cima do pequeno palco, sendo aplaudida por dezenas de pessoas. Abriram a apresentação com “Praça Onze”. Um sucesso total. Além de Bete que gritava entusiasmada da primeira fileira, o baile havia praticamente parado para ouvir Edit cantar. Restavam poucos dançando e um número ainda menor de pessoas permanecia sentado. Os olhos de Edit brilhavam e ela mal podia lembrar-se de seu sofrimento, ou da existência de um Augusto sequer. No meio do show tirou sua máscara e ao fim foi aplaudida de forma histérica pela platéia que, a partir daquele momento a amava.

Um grupo de marchinhas havia substituído a banda de Edit, as pessoas continuavam animadas, mas nada se comparava a apresentação que teve. Fora cumprimentada pela maior parte da festa e, finalmente, pôde dançar a vontade com Bete, Abelardo e seus mais novos colegas de banda. Depois de três doses de conhaque e algumas cervejas, Edit já se sentia bastante a vontade e a dor que carregava a três horas,  parecia estar extinta por completo. Abelardo também havia bebido e, depois de muito tempo, sentiu uma segurança fora do comum. Foi o que o impulsionara a puxar Edit pelo seu braço esquerdo e dar-lhe um beijo apaixonado. A música havia acabado de parar e as pessoas aplaudiam no momento exato em que a beijara. Era como se tudo aquilo fosse pela sua coragem. Ele realizava um sonho, um sonho acordado e de olhos fechados. Edit não resistiu e entregou-se totalmente àquele momento. O barulho das palmas lhe fazia sentir ainda no palco e, por isso, seus pêlos do corpo se arrepiaram. Bete assistia a tudo e vibrava pela reação da amiga ao amor não retribuído.

O baile continuava cada vez mais animado e Abelardo e Edit permaneciam sem máscaras. Aos olhares estranhos parecia um casal de anos muito apaixonado. Olhavam-se nos olhos, andava de mãos dadas e davam os beijos mais ardentes quando pensavam que não havia ninguém lhes prestando atenção. O turbilhão de pessoas coloridas fazia-lhes mover-se de um lado para o outro. Amavam-se mais ainda à medida que eram empurrados e arrastados pela multidão. Jogavam serpentinas, lança-perfume e, por vezes, as cervejas que lhes caía do copo nos transeuntes. Edit sentia sua cabeça e coração em idas e vindas, como se estivesse num mar de seres humanos. Sorria e sentia-se muito feliz.

Já passava da uma da manhã e Abelardo foi trôpego anunciar o fim do baile no microfone. Edit que estava rente ao palco, já não tinha quase nenhuma consciência da realidade. Seu corpo era uma pluma a flutuar por entre as pessoas que a arrastavam para trás. Acabou por vomitar em seu próprio vestido. Bete, que era muito mais resistente à bebida, tratou de levar-lhe para casa.

Edit e Abelardo nunca mais se viram. E aquele romance de um baile, acabou por ser o prelúdio da música “La Foule” da eterna estrela Edith Piaf.

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O caminho de ver

janeiro 17, 2010 · Deixe um comentário

O amor. As cidades. As muralhas. O que nos impede de viver. O que nos impede de viver? Construímos coisas para nos destruir. Para que inventamos os carros e os asfaltos se eles matam tantos de nós a cada instante? O amor reduzido ao carnal. Por que não amamos uns aos outros incondicionalmente? Por que queremos nos matar o tempo inteiro?

E a vida passa errante para os que se negam a enxergá-la. Mais que enxergá-la, a vê-la. Preferem se concentrar no que nos mata, no que nos fizeram acreditar que é “evolução”. Naquilo que nos envenena a cada dia. Envenena-nos em espírito, nos envenena em corpo. Envenena a vida. Mas preferimos não ver. Preferimos continuar nos entupindo de substâncias que nos fazem mal, de rotina que nos faz perder tempo, de mentiras e ilusões da existência mundana.

Vaguem pelos cemitérios, que diferença faz lá dentro o mausoléu da família Matarazzo ou da família Silva? Que diferença faz ter uma estátua de Jesus cristo esculpida pelo maior artista plástico da época diante de restos mortais devorados pelo tempo? Para onde vai tudo isso?

Não param para pensar. Não param para sentir. Não têm certeza da própria existência. Não percebem que estão muito além de uma vida, essa não é a primeira e, para a maioria, não será a última. Portanto, essas vidas não importam. Não importam aqui, esse mundo não é nada. Passagem. Somas. Evolução além do terreno. E quando morrermos, todas as nossas experiências e feitos resultarão na energia inexplicável que somos e desprendemos para o resto do infinito. A terra é uma minúscula partícula no infinito. A vida está em toda parte. A evolução é eterna e impossível de ser racionalizada. O racional também é um grão. O espírito é o infinito.

Mas elas não percebem. Não entendem a passagem. Não buscam experiências que lhes façam potentes. Se matam. Constroem casas que desabarão em suas cabeças, compram carros que serão responsáveis por seus acidentes de morte, comem carne fruto de tortura que eles mesmos envenenam em prol do dinheiro. De que mais o ser humano é capaz? Esse planeta não foi feito só para nascer e morrer. Sejam.

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Sombra e luz

dezembro 13, 2009 · 1 Comentário

É tudo uma gande mentira que busca aprisionar o sujeito no seu póprio eu.

Olhares, enganos, desconstruções, abalos císmicos e toda dor do mundo. Amor delírio. Paixão martírio. Lágrimas tão vivas capaz de produzir luz. A fuga é o primeiro passo. A inércia corrosiva vai matando aos poucos.

Desconexo.

Os carros continuam se multiplicando, o que antes era um facilitador virou um estorvo, graças a impulsão (anti)humana de individualismo e poder. O poder é sempre usado para a exploração. Na briga pelo degrau mais alto da escada, uma cabeça sempre é pisada por alguém que está subindo e que terá que ser pisado também até chegar ao topo da cadeia monetária.

Felicidade é a obra de arte mais perfeita, mas ela ainda está para nascer.

O ego acha uma brecha no espírito e passa a reger as ações do corpo. O espírito, mesmo sendo mais forte, parece ficar apagado. Bloqueado por uma   força que não nos é natural. Ego é criação. Vem de fora para dentro.

Os corpos sem alma transitam numa frenética corrida pelo capital e pelo poder.

Cheiros, peles, desejos entre (des)encontros constantes. O acaso pune e trás os maus encontro inevitáveis. A vida é cheia de rasteiras, é uma trilha com final inacabado. Alguns morrem no caminho, outros se perdem, outros sobrevivem.

Outros tornam-se mortos vivos.

Constante inconstância de saberes, vítimas das mais atrozes dúvidas que transformam-se na certeza de não se saber nada. A mesma potência que nos nutre, nos destrói. A consciência dessa potência, bem como a consciência dos bons e maus encontros deveria fortalecer, mas, na maior parte do tempo entristece.

Os acasos são infinitos e a busca pelo equilíbrio é a mais utópica das tentativas humanas. Não existe meio termo, a vida é uma enchurrada de sentimentos. Olhar para o pássaro que canta em seu ninho é a sua parte bela. A dor é a parte cruel. Dilacerante. Somos feitos para desabar.

Se não houvesse queda não haveria porque levantar.

Fuga da realidade abstrata que é o mundo. Joga o ego fora e deixa o espírito emergir. A força só pode ser achada dentro. O fogo destrói e,  ao mesmo tempo,  emite luz. O mundano assusta e enfraquece, cria o medo que impede de dar qualquer passo. A potência só aumenta se o medo se esvair.

As palavras não são nada perante os sentimentos.

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O que impulsiona

outubro 16, 2009 · 1 Comentário

Numa tarde fria e cinzenta, ela resolve fechar a janela para bloquear a ventania. Mania essa de olhar demais através dela. De repente, ele chega. Grisalho e magro, vestia um moletom branco e uma calça jeans, andava pela rua com alguns sacos de pão. Ela não resiste e o observa. Ele pára diante do cercado de lixo aberto, em frente ao prédio de alto luxo. Ela olha para o outro lado da rua, as janelas já estão fechadas, mas ela ainda o vê. Um carro bloqueia sua visão, ele parecia revirar lixo, mas ela se dá conta de que ele não está. Ele está inquieto, as embalagens dos pães são da padaria mais cara do bairro. De repente, estão no lixo.

O que ele estaria fazendo ali? Ela não consegue enxergar, mas tenta ver. Ele coloca um pão no lixo e mantém os outros dois sacos na mão. Ela percebe que ele não joga o pão no lixo, mas o coloca lá. Ela fica tão confusa que abre a janela. Ele dá mais uns três passos, bastante agitado e põe mais um pão no pé de uma árvore. O saco vazio voa e ele tenta pegá-lo, mas o saco simplesmente se perde pelo asfalto. Ela arregala os olhos, percebe que aquilo é algo muito maior que sua razão. Ela tenta formular conceitos, lembra-se da estória de Maria e João, quando eles traçavam seus caminhos com pedaços de pão para não se perderem. Lembra também do morador de rua que vê sempre, em frente àquele mesmo lixo, vestido com um saco preto procurando alguma possibilidade de alimentar-se naquele reservatório de desperdícios. Tudo isso a deixa muito mais confusa que o homem que coloca os pães ali. Na sua condição de experimentadora, mesmo que na posição de observadora, ela percebe que precisa abrir mais ainda a sua janela, mesmo assim, a passividade a incomoda.

Ele continua alterado e profere palavras, olha para o pão que deixou no pé da árvore, tem mais um saco na mão. O vento gelado atinge o rosto dela que agora repara que ele tem uma pilha de folhetos na mão. Ele balança os folhetos com a mão direita e deixa mais um pão, do saco que lhe resta, no chão, há poucos metros do cantinho da árvore, onde repousa o outro pão. Ela vê por trás dos carros estacionados na calçada que ele fala com alguém e entrega a pilha de panfletos. O alguém era uma criança de uns sete anos. Logo em seguida, ele encontra com a suposta mãe da garotinha que o diz para ir embora. Ela abre mais ainda a janela e tenta colocar a cabeça para fora, começa a ficar muito angustiada e sente uma vontade enorme de sair de casa e ir até ele. Quase foi movida por esse impulso, mas, novamente, pensa. E pensa que talvez ela não devesse intervir. O que a faz achar que ele precisa da sua ajuda? Percebeu que quem estava precisando de ajuda era ela diante de tudo aquilo e que não lhe cabia afastá-lo de sua vontade naquele momento. Mesmo sabendo disso, seus sentimentos gritam e ela quer muito falar com ele.

Ele se afasta e a angustia dela vai crescendo até o perder de vista. A criança agora surge com a mãe, elas parecem conversar algo. A mãe com um semblante tenso gesticula com a garota. Elas passam em frente ao lixo, os folhetos são jogados lá. O homem de moletom desapareceu do seu campo de visão, ela continua vendo o pão embaixo da árvore.

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Agora o Espectro de Ilusões é aqui!

outubro 5, 2009 · Deixe um comentário

Olá antigos e novos leitores queridos!

Finalmente migrei o antigo http://espectrodeilusoes.zip.net para cá e agora só publicarei novos textos neste blog!

Os textos antigos estão com as datas de publicação no outro blog!

Obrigada a todos por dividirem essas sensações e pensamentos comigo!

Abs,

Rafaela

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Os verdadeiros loucos

outubro 4, 2009 · 4 Comentários

Há um tabu presente na nossa realidade que tem me chamado cada vez mais a atenção. Uma coisa simples e que pode, a primeira vista soar clichê, mas não deixa de ser algo difícil de ser superado: lidar com as diferenças. As segmentações estão por toda parte. A cada dia que passa, ficamos sabendo de novos movimentos de pequenos grupos que são ou foram excluídos ao longo da nossa história. A questão fica ainda mais complexa, quando percebemos que muitos desses grupos que brigam por seus direitos, não se contentam a militância político-social e resolvem rebater a exclusão com a mesma arma. É triste perceber-se inserido nesse contexto, pregamos tanta coisa, lutamos por mudanças, mas quem e o que estamos sendo para as pessoas ao nosso redor? Vamos nos defender jogando de volta outra pedra?

Mas o principal aqui é isso; as diferenças. Por que é tão difícil aceitar algo ou alguém que não compartilha do nosso jeito de ser e pensar? Por que preferimos excluir esses grupos e nos tornar cada vez mais pobres de espíritos, em vez de incluí-los para um enriquecimento mútuo? Primeira coisa, alguém detém alguma verdade? Existe uma verdade? Por que você se acha no direito de taxar fulano disso ou daquilo? Já se olhou no espelho? Que não seja apenas para retocar a maquiagem ou fazer a barba. Minha pergunta é: Você se conhece? Acho que essas tentativas de negação e exclusão que presenciamos no nosso meio social diariamente são frutos de uma insegurança pessoal imensa. Se você se acha tão detentor da verdade, por que se sente tão ameaçado com a realidade alheia a ponto de querer exterminá-la?

O ser humano tem muitos traços em comum, principalmente pelo seu convívio em sociedade. Um desses traços é o medo do novo. Muitos de nós não sabemos lidar com as rupturas com velhas estruturas e, cada pessoa tem um tipo de reação. Essa reação muitas vezes é a raiva e o desejo de isolar essas mudanças, para que não nos atinja. Pois bem, faça sua escolha. Seja a mesma pessoa a vida inteira e, quando envelhecer, olhe para trás e perceba que não aprendeu nada. Não falo de essência, o que somos de verdade por dentro não muda, carregamos para sempre. Mas existem muitos caminhos a serem percorridos e o aprendizado está justamente neles.

O nosso sistema econômico e político faz com que acreditemos que a melhor saída é realmente ignorar as diferenças e a buscar, individualmente, dinheiro e poder. Esse é o “sucesso” que eu vejo sendo proferido de várias bocas diariamente. Fulano é “bem sucedido” porque é rico, sicrano é feliz por ter poder e pisar nos outros. Acontece que, esse modelo de vida que criaram para gente é tão falho que percebemos que uma minoria quase que absoluta detém esse “sucesso”. Será que ele realmente existe? Será que esse é mesmo o melhor trajeto para seguir? A melhor essência?

Pois é esse mesmo sistema que nos torna loucos por papel, que segrega nossa sociedade em grupos de descriminados e descriminantes, ou os dois ao mesmo tempo. É esse mesmo sistema que situa um ser humano como “louco” e, portanto, desmerecedor do convívio social. Para tal atitude existe uma série de argumentos vazios e carregados de crueldade. Afinal, o que é o louco no meio de um agrupamento humano? Ele é alguém que temos que ser descrentes, alguém que nos oferece perigo. E por que encarnamos esse perigo, afinal, cadê a nossa segurança de seres absolutos que estão aptos a julgar qualquer atitude diferente da nossa como “loucura”? O louco pode ser perigoso, assim como qualquer pessoa que se aproxime de nós. São pessoas que passam ou vivem em sofrimento psíquico e que, por isso, se tornam no consciente popular uma doença. O esquizofrênico não é a esquizofrenia, o psicótico não é a psicose. Eles são, antes de tudo pessoas. Iguais a mim, iguais a você. Assim, simplesmente, pessoas. Pessoas que têm o direito de discordar de você, que partilham, assim como você, anseios e possibilidades.

O medo do louco e de tudo que é diferente é a forma mais covarde de tentar justificar a exclusão e o confinamento. O que realmente a sociedade teme são as diferenças. Ela teme aquilo que não consegue se enquadrar por inteiro num molde aprisionador e razo de relações humanas batizado de sistema econômico social. Chamamos de louco o sujeito que se expressa como quer dentro de um modelo extremamente castrador, quando, na verdade, os loucos somos nós. Nós topamos nos trancar nesse cercado de mentiras. Nós aceitamos ter que trabalhar oito horas por dia numa empresa que odiamos porque precisamos pagar o dinheiro que – nem existe – gastamos dos nossos cartões de crédito. Nós nos casamos sem nem saber o que é amor, para constituir uma família ilusória, que trairemos de todas as formas possíveis. Nós aceitamos sorrir, quando estamos extremamente irritados com alguma injustiça que nos foi feita, e assim desenvolvemos nossos cânceres e pandemias. Diante de tudo isso, você ainda acha que não está sujeito a ter um surto? E ainda bem que temos o poder de surtar e gritar diante dessa realidade atroz em que vivemos! Senão seremos nós a doença, mortos vivos que deixaram sua vida passar como um filme da “sessão da tarde”. Pois mesmo como todas as nossas esquisitices naturalmente humanas e nossa postura segmentadora estão todos buscando uma mesma coisa: a felicidade de existir, inclusive, no meio social.

** Escrito em agosto de 2009

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Cores

outubro 4, 2009 · 1 Comentário

-Parar para escrever é sempre um encontro comigo, não adianta fugir da minha missão, assim me encontro e me reinvento. Estou no pé de uma árvore no meio de um dia cinza, caótico e de sentimentos desordenados. O verde da grama molhada dá cor e paz ao meu espírito. Tenho certeza que sairei daqui renovada.

Alice e seu mundo. Quantas vezes teve vontade de desistir… Quantas lágrimas derramadas em cada linha que escrevia. Os dias cinza não afetavam mais seu humor, mas ela se sentia sufocada por não conseguir ver o céu. O azul é o seu pedaço de verdade, seu pedaço de natureza em meio a uma floresta de concreto e leões famintos por sua essência. Então pensava: pra que desistir? O cinza e o azul têm funções antagônicas, mas são igualmente necessárias. Para Alice e para todo fio de humanidade que possa existir.

Alice não vê a solidão como algo triste, ela não tem medo de si mesma. Sozinha, apenas com a presença verde da vida ela conseguia ver muito mais. -Os problemas mundanos ficam muito pequenos quando nos aproximamos de nós mesmos.

Alice escrevia na mesma freqüência em que existia. Sentia-se melhor a cada linha, mesmo sendo elas frutos de uma desordem mental completa.

Alice tem o pulmão e o estômago frágeis e sua última pneumonia lhe deixou temporariamente surda. Ela sentia a atmosfera ao seu redor amarelada, opaca. Via lábios que se mexiam, mas não emitiam nenhum tipo de som. Sentia muitas pessoas ao seu redor opacas, tornando-se palavras vazias, corpos sem vida, seres sem alma. Tinha medo desses pensamentos, pois insistia em acreditar que todos têm alma, alguns apenas esquecem ou fingem que ela não está ali. A surdez lhe dava mais vontade ainda de se interiorizar e ouvir suas próprias vozes. Ela não estava presa em seu corpo e nem se sentia opaca, mesmo quando o mundo inteiro parecia estar.

Alice procura o vermelho do amor em cada ser que a habita por dentro e por fora. E é essa paixão que a faz acordar todo dia e falar pra si mesma: não posso desistir. Não vou desistir de mim.

** Escrito em julho de 2009

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Uma recente experiência

outubro 4, 2009 · 1 Comentário

Minhas leituras e pensamentos ultimamente estavam voltados à compreensão das várias nuances do meu espírito. Eu me sentia confusa por estar vindo tudo de vez de uma forma que eu nunca havia sentido. Antes eu experimentava o mundo espiritual como uma força ambígua, porém, sempre me trouxe, acima de tudo, leveza. Nos últimos dias eu estava vivendo o peso. Pedi para que surgisse um contato maior, com pessoas que pudessem me transmitir a força de seus ancestrais e da natureza. Pedi que eu voltasse a tomar ayahuasca, mas pedi, acima de tudo, que fluísse, que eu não precisasse procurar, pedi para que tudo isso viesse até mim. E veio.

Domingo durante o dia fui fazer fotos e vídeo com um amigo para um trabalho lindo que está sendo iniciado com índios do Acre e que será ampliado para índios de todo o Brasil. O projeto da Associação Casa do Estudante Indígena envolve educação e formação para os índios que possam contribuir com seus conhecimentos para o bom funcionamento de suas aldeias. Tive a felicidade de conhecer três grandes lideranças indígenas; Shanerú representando o povo Yawanawá (que significa “queixada”); Harú dos Kontanawá (“povo das estrelas”) e Leopardo da etnia Kaxinawa (“morcego”).

Quando eu e meu amigo chegamos ao local, fazia um dia lindo de sol. Os índios estavam embaixo de uma arvore fazendo rituais de pintura para se apresentarem algumas horas depois na Aldeia de Carapicuíba. Fiquei fascinada desde o primeiro contato e, mesmo na correria, pude sentir a vibração de seus cânticos e como aquilo reverberou bem nas pessoas que os assistiram. Acabado o trabalho, fomos à casa de uma das pessoas que estavam lá para fazer o ritual.

Chegamos na casa que era maravilhosa, me senti como se estivesse no meio da floresta, o céu estava muito estrelado, a lua estava minguando e eu conseguia sentir o cheiro forte da vegetação. Respirei melhor. Enquanto os índios não chegavam, ficamos em volta de uma fogueira os esperando. Havia umas quinze pessoas lá e todos alimentavam a fogueira, catando lenha nas proximidades dela. Eu estava muito ansiosa, havia quatro anos que eu não tomava o chá e minha última experiência havia sido muito forte. Na verdade, estava com medo de ver coisas que me fizessem passar mal e que me fugissem o controle. Não o controle racional, mas o controle do meu próprio espírito diante de forças estranhas que se fizeram presentes da última vez. O medo e a ansiedade repercutiram no meu corpo e eu não parava de ter vontade de urinar. Fui ao banheiro cerca de dez vezes seguidas, não queria sentir vontade de fazer xixi na hora das mirações, pois lembro que foi assim que passei muito mal. Há quatro anos, no ritual de ayahuasca, eu já estava fora do plano prático, quando senti muita vontade de urinar, me levantei da roda e fui ao banheiro sozinha. Eu mal conseguia sentir meu corpo e foi muito difícil conseguir tirar a roupa e sentar na privada. Quando, finalmente, consegui fazer xixi eu olhei para a parede de azulejos e vi uma série de esfinges e Cleópatras em série, seguido da visão de milhares de gueixas. Isso tudo envolto em teias e com besouros multicoloridos. Eu fiquei muito impressionada e comecei a ter medo. Levantei, me vesti com dificuldade e fui até a pia lavar as mãos. Quando me olhei no espelho foi um dos piores momentos. Me vi derretendo na minha frente e aquilo desencadeou uma série de outras visões muito dolorosas para o meu espírito.

Apesar da minha ansiedade, eu estava muito feliz em estar ali, aquelas pessoas todas tinham um brilho próprio que pude sentir mesmo naquelas que eu não me cheguei a conversar. Os índios demoraram quase quatro horas para chegar e esse foi o tempo ideal para eu me sentir segura e esquecer o medo que, na verdade, eu não sentia. Meu espírito estava muito pronto para aquilo e, quando me dei conta disso, minha força se restabeleceu e eu pude me sentir plena novamente.

Sentada na grama, eu admirava aquelas figuras tão simbólicas para mim. Seus olhos carregavam a sabedoria e a dor de povos marcados por massacres e perdas, mas, muito mais que isso, eles me passavam uma força e conhecimento de seres humanos que sabiam que eram parte da natureza e usufruíam disso da forma mais verdadeira possível. Eu olhava maravilhada para os seus cocás e colares de sementes, esses elementos naturais que eles traziam adornando seus corpos revelavam sua ligação inevitável com a floresta e o respeito que mantinham por ela.

Eu esperava curiosa pelo inicio do “trabalho”. O “Ni”, como eles chamam o chá, foi servido um a um. Primeiro, uma das pessoas do grupo colocava o chá em um pequeno copo, em seguida, Leo pegava o copo, olhava fixamente para ele e emitia sons parecidos com sopros. Em seguida, ele passava o copo para Shanerú que falava algumas palavras em sua língua e fazia o mesmo som, logo depois, ele passou o copo para Harú que “soprava” no mesmo algumas vezes e finalmente o passava para a pessoa que ia tomar. O ritual foi repetido cerca de vinte vezes que era, mais ou menos, o número de pessoas que estavam lá. Os índios repetiram isso da primeira a ultima pessoa com a mesma concentração. Depois que todos tomaram, eles fizeram o próprio ritual e tomaram o “vinho sagrado”.

Todos nós sentamos novamente em forma de círculo, em volta da fogueira. Era uma noite fria e muitos estavam envoltos em cobertores e mantas. A gente permaneceu em silêncio para concentrar as energias. Meu amigo dizia já sentir alguma coisa, eu também já sentia, mas nada parecido com as minhas primeiras sensações no trabalho de quatro anos atrás. Estava muito brando e eu não “via” imagens extra físicas, apenas a energia que nos circundava. Era como se eu pudesse enxergar o ar. Tudo surgia com pontos brilhantes que realçavam a textura das imagens. As portas estavam abertas, as forças já se faziam presentes. Falei ao meu amigo que nós deveríamos olhar para o fogo e nos concentrar porque aquele era o momento que conseguiríamos ver a real velocidade das coisas. O silencio já havia sido interrompido pelos cânticos dos índios, que ganhavam mais força com o passar do tempo. Eles cantavam em sua língua, mas eu conseguia sentir do que se tratava. Nesse intervalo, alguns de nós havíamos deitado, outros permaneciam sentados, parecia que estávamos sem energia física, prontos para ver e sentir todas as forças que estavam vindo. Foi quando Shanerú se levantou e pediu para que nos levantássemos também. Foi um momento abslotumanente mágico, a sintonia em que estávamos era inacreditável. Seguimos as instruções dele e demos as mãos e formamos um circulo em volta da fogueira. Batíamos os dois pés na terra e dançávamos o Marirí. Aquilo me trouxe uma felicidade imensa, as pessoas sorriam leves. Shanerú cantava e nós os seguíamos em seus cânticos poderosos. Depois da dança, tornamos a nos sentar, alguns permaneceram em pé. Harú nos perguntou se a gente queria tomar mais um pouco do chá, a maioria tomou novamente e foram feitos os mesmo rituais da primeira vez. Eu também repeti, e me sentei novamente. Sentia as partículas de infinito dentro de mim e me concentrei para me entregar. Os cânticos me tocavam cada vez mais fortes, eu observava os três pajés que mantinham uma sintonia com tudo e todos fascinante. Cada palavra que cantavam reverberava no mato e em mim de uma forma inexplicável, eu podia sentir tudo através deles.

Comecei a sentir o meu corpo amolecer, tive que fazer certo esforço para manter a cabeça firme. Sentei com as pernas dobradas pra frente e as mãos por baixo dos joelhos. A luz da fogueira estava mais baixa e eu conseguia ver os rostos que estavam mais próximos dela, inclusive os dos pajés, que concentravam partículas luminosas. Leo começara a ler algumas canções com a ajuda de uma lanterna. Eu olhava para seu rosto pouco iluminado e parecia ver seus ancestrais dentro dele, como se o auxiliassem a cantar. Olhei para a fogueira e a terra embaixo dela parecia respirar, contraindo e expandindo. Meu corpo estava cada vez mais relaxado e eu senti uma necessidade imensa de deitar, porém eu continuava sentada inerte, até que consegui me mover e deitei na grama com a cabeça em cima do meu braço. Eu podia sentir todas as presenças não físicas e aquilo me dava uma mistura de maravilhamento e sofrimento ao mesmo tempo. Não dava para racionalizar nada, era tudo ao mesmo tempo, minha mente estava vazia, eu era apenas espírito. Senti um peso que, ao mesmo tempo, me trazia leveza, mas era difícil de superar. Harú começou a cantar de uma forma inacreditável, a voz que saia do seu corpo não era apenas dele, ela emitia sons da natureza e reverberava de uma forma que acredito não ser humana. Olhei para o meu amigo que estava deitado perto de mim, resolvi me sentar. Ele sentou em seguida e ficamos nos olhando, eu disse que precisava fazer xixi, mas que não queria ir naquele momento, ele disse que iria comigo. Esperei mais um pouco e me senti segura para encarar a minha imagem novamente. Enquanto isso, Harú havia perguntado novamente se alguém queria tomar mais ni, pois essa seria a última sessão. Eu resolvi não repetir, já me sentia dentro de tudo o suficiente. O meu amigo tomou mais uma vez e, algum tempo depois, foi comigo até a casa e eu fui ao banheiro. Ao entrar olhei de relance para o espelho. Já estava fácil me movimentar e consegui fazer tudo normalmente. Fui lavar as mãos e me olhei no espelho, minha imagem era quase a mesma, mas eu enxerguei os meus olhos maiores e me aproximei. Eu conseguia perceber cada movimento mínimo da minha face, meus olhos estavam maiores e eu sentia como se pudesse ver as coisas de fato. Enfrentar esse medo me deixou ainda mais forte e saí do banheiro me sentindo muito bem. Meu amigo me esperava do lado de fora da casa fumando um cigarro. Nós ficamos na varanda fumando e observando aranhas que andavam por suas teias imensas. Elas eram brilhantes e a gente conseguia entender o que elas comunicavam. Olhamos para a vegetação exuberante da Mata Atlântica e elas pareciam estar na mesma freqüência que as aranhas e nós mesmos. Eu gritei: “Deleuze, viva Deleuze!”, me referindo a rizoma e a sensação plena, mais uma vez, de que somos uma coisa só. Ele me contou que quando olhou para mim no “terreiro” viu a metade do meu rosto iluminada e eu tinha olhos de índia. Eu ouvi o cântico dos índios e dessa vez, eles tocavam violão, disse a ele que precisávamos voltar e assim o fizemos.

A luz parecia ter aumentado no lugar, Shanerú cantava músicas muito bonitas e eu senti muita alegria. Levantei, fumei, dancei, a sensação era de realização, intensidade e suavidade ao mesmo tempo. O yawanawá perguntou se a força já tinha baixado, se as pessoas se sentiam bem. Eu já não estava mais tão envolvida pelos espíritos da natureza ali presentes, mas as pessoas que tomaram pela terceira vez ainda sentiam muito forte. Shanerú continuou a cantar canções belíssimas de seu povo e algumas que ele mesmo fez. Verdadeiros artistas, feiticeiros, guerreiros aqueles índios. Eles, a natureza e nós mesmos conseguimos transformar aquele lugar em pura luz e amor. Eu ficava admirada com a beleza de tudo aquilo e só conseguia sorrir. O sorriso mais verdadeiro, aquele que vem de dentro, uma harmonia intensa entre você e a essência de tudo. E assim permaneço.

** Escrito em abril de 2009

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Das coisas que realmente importam

outubro 4, 2009 · 1 Comentário

E lá estava ela no fim do corredor encantadoramente perdida. Na verdade, o modo em que se via perdida não era nada além de uma preguiça de sua alma de se tornar plena. Ela se buscava nos livros, nas telas de cinema e nos quadros que pintava escondido, mas não se sentia reflexo de nada. Vontade de sacudir essa maluca pelos ombros e falar para ela que não falta nada, a não ser um olhar dela para ela mesma.

Essa incessante busca que as pessoas tendem a fazer de si mesmas nos outros ou em todo pedaço de intensidade que acham por aí não leva a nada, sinto dizer. O negócio está aí mesmo, dentro da gente e de mais ninguém. Sinto muito, mas não adianta ver todos esses filmes desesperadamente na esperança de que Bergman tenha uma resposta para uma dúvida da sua alma. A arte ajuda, as pessoas nos tornam melhores, mas nada adianta se a gente não tiver a nós mesmos.

Quero dar uma volta na orla e sentir a água do mar abençoando os meus pés. Outro dia me perguntaram por que não gosto do mar. Até então eu não tinha me dado conta disso, daí me veio a dúvida se era realmente eu que não gostava dele, ou ele que sempre me quer dizer demais. O universo está todo ali, não tem como negar. Ninguém, nenhum ser vivo por mais insensível que seja passa ileso pelo mar. E é tão bonito ver que, mesmo nos dias de hoje tão frios e cinzentos, as pessoas ainda “perdem” pedaços de seus tempos para observar o fantástico colorido que ganham as ondas ao serem tocadas pelos feixes de luz emanados pelo sol no fim de sua jornada diária. Quero tocar todas essas cores, quero trazê-las para mim, quero guardá-las para sempre dentro de tudo que sou. E consigo. Portanto não acho que eu não goste do mar e nem ela, mesmo quando ela insiste em não dar importância alguma para esse pedaço de vida maior que todos nós.

De repente as coisas tornam-se tão fluidas e você se torna tão pleno de si que dá preguiça da pequinês desse mundo. Dá vontade de abdicar das suas responsabilidades e mergulhar num mundo de fantasia real proporcionado exclusivamente pelo que é intenso e verdadeiro, pelo que eu chamaria de alimento da alma e não de pura obrigação banal, sobrevivência ou rotina vazia. Por impulso ou não, acabo seguindo o meu eu e fazendo exatamente isso.

E os sonhos revelam tudo isso. Tudo isso que tínhamos certeza sentir, temos a maravilhosa oportunidade de assistir durante o descanso dos nossos espíritos. Eu diria a ela que é muito maior que qualquer filme que ela possa assistir. Portanto, assistamos nossos sonhos, prestemos atenção em tudo que somos através disso, no que faça sentido ou não, no que seja palpável ou não, porque as pessoas têm que entender que nem tudo que existe faz sentido e nem tudo que somos está aí para vermos. Nós somos tudo que vibra, tudo que faz pulsar. E o alimento de todo esse universo infinito de nós mesmos são os nossos corações.

** Escrito em jan de 2009

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A sinestesia do amor

outubro 4, 2009 · 1 Comentário

O cheiro de esmalte a entorpecia. O loiro dos cabelos dela brilhava naquele quarto de janelas fechadas. Suas bochechas ficavam mais rosadas com o calor daquela tarde de verão. Ela acompanhava sua leveza ao limpar os excessos de vermelho nas bordas das unhas. Acendeu um cigarro e continuou admirando a beleza aparentemente inocente de Maria. Aqueles olhos apertadinhos, tão angelicais, passavam uma força e segurança que envolvia Lara por inteiro. Ela fechava os olhos, desenhava Maria em sua frente e quando os abria ela estava exatamente do jeito que imaginou. Abre as janelas, quero fumar. Lara pensou que ela borraria suas unhas, mas não atreveu-se a falar nada, Maria sempre sabia o que fazer na hora certa e se não fosse a hora certa sabia como fazer para que fosse. Ela levantou-se da cama de lençóis vermelhos e almofadas verdes e abriu a janela para que sua bela Maria pudesse fumar. Seus movimentos eram tão leves, puxava o cigarro do maço sem nenhuma pressa de fumá-lo, sabia apreciar cada instante, do mais fútil ao mais intenso. Lara não acreditava que tal perfeição pudesse existir. E, de fato, não poderia.

Maria deu o último trago no cigarro e apagou-o no cinzeiro. Aproximou-se lentamente de Lara que estava encostada em uma das almofadas verdes, completando a contradição de cores tão bela que era a junção da almofada com os seus cabelos rubros naturais. Maria ficou por cima dela, olhando fixamente em seus olhos verdes. Lara ficava tonta só de sentir seu cheiro de colônia fresca que, na verdade, lhe era natural. Maria esfregava devagar seu sexo contra o de Lara, sentia-o umedecer abundantemente. Ela encostou os dedos por cima da calcinha dela, apertou devagar. Lara fechou os olhos, sorriu. “Ela vai acabar borrando as unhas”, pensou. Maria estava toda arrepiada, ficava excitada só de ver a devoção de Lara por qualquer suspiro seu. Sabia o quanto era bonita. Sabia o quanto era conhecedora de quase tudo. Sabia que era poderosa. Mas não se fazia superior. Sempre soube que faltava algo em si que só poderia achar nas outras pessoas, assim como todos nós. Maria mordiscava a orelha de Lara devagar, na medida em que acariciava seus seios por dentro do sutiã. Lara passava as unhas pelas costas de Maria que gemia baixinho em seu ouvido. Ela já estava explodindo de tesão, apertou Maria contra si e subiu nela. Arrancou sua calcinha e mergulhou no meio de suas pernas. Chupava Maria com uma devoção de poucos, fazia-lhe virar os olhos e esticar os pezinhos de prazer. Gozou poucos minutos depois, de forma tão perfeita, que só cabia a ela. Mas seu prazer não era egoísta, precisava que Lara gozasse imediatamente depois e assim o fez vezes seguidas.

Horas depois e exaustas, as duas fumavam um cigarro juntas. Uma ao lado da outra na cama, olhavam para a mesma direção que naquele momento não era física. Concentravam-se cada uma em seu plano, olhando para o mesmo teto branco. Lara serviu-se de uma taça de vinho, estava mergulhada em seus pensamentos. Não pensava em Maria, mas em si mesma. Sentia-se tão mulher, se sentia tão amor e, ao mesmo tempo, tão vazia de si mesma. Resolveu olhar para o lado e, ao contrário do que imaginava, deparou-se com Maria observando-a. Nunca tinha sentido os olhos de Maria tão vivos ao olhá-la. Soube naquele instante que ela a amava mais do que poderia suportar. Mas suportaria. Sentiu vontade de vomitar. Seu estômago fraco ficou afetado com aquela única taça de vinho. Foi ao banheiro. Maria permaneceu na cama. Soube exatamente o que Lara não precisava falar. Sentiu uma lágrima cair em seu rosto. De que valia a sua beleza, se não era amada plenamente? Não queria nada pela metade. Não sentia nada pela metade. Foi até o banheiro. Lara escovava os dentes em frente ao espelho, com olhar fixo em si mesma. Não consigo mais. Ela arregalou os olhos e se engasgou com a pasta. Cuspiu, lavou a boca e olhou para Maria, que não conseguia mais segurar as lágrimas. Me sinto uma fraca chorando assim na sua frente. Lara atirou-se em seus pés e começou a beijá-los. Pára, não quero que chore por algo tolo. Não quero que me venere, quero que me ame! Lara não pôde suportar ouvir tanta dor vindo de seu grande amor, sentiu seu peito apertado. Eu sou uma idiota, não ligue pra isso, é existencialismo demais. Não é, você não tem culpa do que sente. Lara levantou-se, colocou as pontas dos seus dedos trêmulos no rosto de Maria para sentir as suas lágrimas. Você é só o que sinto e esse é o problema. Maria afastou-se de Lara. Não suporto mais, vamos parar por aqui. Eu não consigo viver sem você. Nem eu, mas precisamos aprender. Lara beijou Maria com toda a sua vicissitude, de um jeito que nunca sonhara beijar ninguém. Caíram no chão e amaram-se loucamente. Em meio à gozos e lágrimas. Sabiam que não podiam se separar. Sabiam que precisavam uma da outra o tempo inteiro. Mesmo sem saber muito bem o que era ser individuo. Não precisavam. Isso era racionalizar demais. E, afinal de contas, para que racionalizar o amor? Adormeceram no tapete, nuas e entrelaçadas. Maria continuava linda, mesmo com o esmalte borrado.

** Escrito em dez de 2008

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